terça-feira, 29 de julho de 2014

Aziza Brahim: a música é uma linguagem universal




Aziza Brahim tornou-se este ano uma autêntica estrela do género da world music. O seu álbum "Soutak" recebeu críticas excelentes e foi muito bem acolhido pelo público. Graças à editora discográfica Glitterbeat, a publicação croata Pot teve a oportunidade de fazer uma entrevista com a cantora saharaui.

Lendo a sua biografia, é interessante ver que trocou a educação em Cuba pelo estudo da música, algo que ali não podia fazer. De onde vem esse seu amor pela música?

Na realidade, não troquei a educação em Cuba porque passei ali nove anos estudando o ensino secundário e pré-universitário. Nove anos em que desfrutei de um sistema educativo de primeira qualidade, coisa que não teria sido possível se tivesse permanecido nos acampamentos. Mas, depois de tanto tempo, tinha muita vontade de ver a minha família e os cursos universitários que podia estudar, Direito ou Medicina, não me motivavam para prolongar a minha estada na ilha. Se tivesse podido estudar Música, não teria hesitado, mas dado que não tinha essa possibilidade, decidi regressar a minha casa. O amor pela música acompanha-me desde que tenho o uso da razão.

Foi difícil recusar a possibilidade de ir para Cuba, sobretudo tendo em conta que naquele tempo vivia num campo de refugiados?

Com nove anos, eu queria ir para Cuba com todas as minhas forças, sobretudo para ir ver a minha irmã, que tinha ido estudar um ano antes. Na altura eu não tinha muita consciência de viver num campo de refugiados, ou o que isso significava exatamente. Para mim, era a minha casa, o meu país, sempre tinha sido assim e eu não conhecia outra coisa.

Ainda que esta entrevista esteja focada na música, é impossível evitar o lado político. A guerra no Sahara Ocidental durou mais de 15 anos. Além disso, muitos anos depois, uma parte do povo saharaui viveu e continua a viver em campos de refugiados. De que forma esta difícil situação se reflete na cultura de seu povo?

Em quase todos os aspetos, a situação do meu povo determina a cultura e a produção artística. Possivelmente só se salvam os aspetos mais tradicionais da nossa cultura porque permanecem conservados na memória dos nossos mais velhos. Mas as manifestações artísticas que agora se produzem caracterizam-se por um forte sentido de resistência, de reivindicação e de luta, pois elas são marcadas pela realidade histórica quotidiana que sofrem os saharauis.

O filme "Wilaya" relata os problemas do povo Saharaui. Escreveu a banda sonora da película e também participou como atriz. Infelizmente, a película nunca foi mostrada na Croácia. Pode falar-nos um pouco mais sobre ela? De que forma a película foi bem recebida nos festivais? Conseguiu sensibilizar muita gente sobre este tema?

Sim, a película “Wilaya” conta uma história de ficção de duas irmãs saharauis, muito diferentes entre elas, que se reencontram após uma larga temporada. É uma história muito humana e muito realista que nos faz refletir sobre a nossa situação como seres humanos e como povo dividido entre os acampamentos, a diáspora e os territórios ocupados. Foi muito bem recebida pelo público e pela crítica. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais. Espero que a possam ver dentro em breve na Croácia.

Outra artista Saharaui conhecida é Mariem Hassan e durante um período as duas atuaram com o grupo Leyoad. Cantaram juntas alguma vez? Pode recomendar alguns outros músicos saharauis aos nossos leitores?

Trabalhámos juntas no Leyoad durante um tempo, mas depois não voltámos a colaborar. Outros músicos saharauis que recomendaria aos vossos leitores são o grupo Tiris, a cantora Shueta e o guitarrista Nayim Alal.

Quando se fala da ‘música do deserto', Tinariwen, Tamikrest, Bombino são alguns dos artistas Tuaregues conhecidos no mundo. Quais as semelhanças e as diferenças entre a música dos Tuaregues e a dos Saharauis?

É uma pergunta difícil, porque para lá das generalizações estão as peculiaridades de cada artista. Acho que as semelhanças se centram nas raízes africanas de ambas e as diferenças em algumas ‘nuances’ rítmicas. Quando ouço a música tuaregue, o som das guitarras e o ritmo que induz a uma espécie de transe aproximam-me da música do meu país. Mas a música tradicional saharaui rege-se pela variações do Haul que determina ritmos específicos no Tabal. Outra diferença importante é a linguagem dos textos – enquanto eles cantam em Tamasheq, nós fazemo-lo em Hassania, o nosso dialeto da língua árabe.



O seu disco "Soutak" foi gravado com músicos do Mali e de Espanha, e nele, além da música tradicional Saharaui/africana há também muitas influências de flamenco. Donde surge a ideia por esta mistura?

Quando faço uma canção, não parto de um propósito abstrato, mas de uma melodia. As melodias que imagino estão influenciadas pela música que escuto. Gosto muito das música de raiz e, portanto, não é surpreendente que o resultado final de  “Soutak” agrupe influências de diferentes músicas.

A canção "Julud" foi eleita como um dos êxitos do álbum. Pessoalmente creio que é uma das canções mais belas que ouvi este ano, mas poucos sabem que a canção é dedicada à sua mãe. Pode dizer-nos mais sobre as origens desta canção?

Muito obrigado. É verdade que é uma canção dedicada à minha mãe. Quis expressar-lhe o que ela significa na minha vida, é um agradecimento por tudo o que ela fez por mim e pelos meus irmãos. É uma homenagem também às mulheres saharauis. Um reconhecimento à luta incansável ​​e à sua capacidade de superação frente a todos os obstáculos de uma vida marcada pelo êxodo e a dificuldade de construir um país no exílio, assim como a sua contribuição para a manutenção e conservação da cultura saharaui.



O resto do álbum, em grande parte, também trata os problemas com que se confronta a sua nação. A situação no Sahara Ocidental está melhorando?

Lamentavelmente, a situação não melhora, antes se agrava porque estamos submetidos a um esquecimento absoluto. A cada dia que passa, os saharauis continuam condenados a subsistir nos campos de refugiados ou sob os rigores de uma ocupação ilegal e totalmente repressiva. Penso que melhorará no dia em que forem respeitadas cada uma das resoluções das Nações Unidas para o processo de paz na região e em que nós Saharauis possamos decidir o nosso destino num referendo sobre a autodeterminação.

O seu novo álbum foi produzido por Chris Eckman e gravado ao vivo. Como foi a experiencia de trabalhar com Chris Eckman? O que trouxe ele ao álbum como produtor?

Trabalhar com um produtor da estatura de Chris Eckman é uma sorte e supõe uma experiência fantástica de crescimento pessoal e profissional. Ele foi muito generoso em se comunicar comigo e estivemos perfeitamente de acordo sobre como abordar o disco. Ele deu ao álbum a sua grande sabedoria como produtor, sobretudo através de um processo de trabalho particularmente eficiente, tanto na produção como na mistura.

Imediatamente após a sua aparição, "Soutak" recebeu críticas excelentes, e permaneceu no primeiro lugar do ranking de êxitos da WMCE três meses seguidos. Esperava ter tanto êxito?

Sinceramente, foi uma surpresa e uma grande alegria. Emocionei-me com cada uma das críticas que li sobre o meu álbum. Não esperava que Soutak estivesse tantos meses no primeiro lugar da WMCE e agradeço muito a todos ouvintes que apoiaram o meu trabalho, assim como aos locutores que nele votaram para que permanecesse três meses seguidos nessa posição da lista.

Mudou alguma coisa na sua vida depois do êxito deste álbum?

Sinto-me mais reconhecida como artista, mais apreciada e mais satisfeita, claro está. O êxito de Soutak dá-me ânimo para continuar a trabalhar em próximos projetos.

A Aziza faz muitas atuações ao vivo. Há alguma possibilidade de vir a dar um concerto em algum local da ex-Jugoslávia?

Seria genial atuar aí, assim os promotores e o público estejam interessados.

O género de world music está a ganhar cada vez mais popularidade no mundo e os músicos que interpretam música baseada na tradição do seu povo podem hoje em dia encontrar más facilmente vias para chegar ao público nos cantos mais remotos do globo mesmo que não entendam a sua língua. Como comenta?

O velho lema de “Pensa globalmente, atua localmente” tem a sua versão musical. A música autêntica, de raiz, chega cada vez a mais gente em torno do planeta. Isto é enriquecedor tanto para os artistas como para o público porque supõe um maior grau de empatia com sensibilidades e culturas de outros povos. E isto demonstra, uma vez mais, que a música é uma linguagem universal.

Tradução para o espanhol: Andrea Rožić & Minela Fulurija

Foto: Guillem Moreno

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Marrocos, 129.º no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano




O Índice de Desenvolvimento Humano, publicado anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), órgão das Nações Unidas, coloca Marrocos no 129.º lugar entre os 187 países analisados (0,617).

Para elaborar o ranking, o PNUD utiliza três critérios principais: a longevidade, a educação e o rendimento.

Há três anos atrás, o então porta-voz do governo marroquino tentava defender o indefensável ao acusar a ONU de ter por base critérios não científicos que falsificariam os resultados…. A época, em 2011, Marrocos ocupava o 130.º lugar. Três anos depois… está em 129.º!!

A nível magrebino, é a Tunísia (0,721) que está à frente ocupando o 90.º lugar, seguindo-lhe logo depois a Argélia (0,717) em 94.º lugar. Apesar da revolução democrática e a instabilidade que isso gerou, a Tunísia subiu este ano 4 lugares no ranking IDH do PNUD.


Fonte: Bladi.net

Os infortúnios de escrever sobre Marrocos

Foto do 1.º ministro marroquino publicada no site independente demainonline: O procurador da mais alta instância judicial de Espanha rejeita a acusação de Benkirane e do Makhzen contra o jornalista espanhol Ignacio Cembrero.



Ignacio Cembrero, antigo correspondente do El País para a região do Magrebe, a quem Marrocos interpôs uma ação judicial por alegado “incitamento ao terrorismo”, conta aqui toda a história. As pressões de Marrocos que levaram ao seu afastamento da cobertura da região no El Pais e o seu posterior pedido de demissão do periódico espanhol onde trabalhava há mais de trinta anos. 

Uma história reveladora de como as autoridades do Governo marroquino e o Makhzen encaram o “perigo” da liberdade de imprensa, e as tramoias e perseguições que desencadeiam contra todos aqueles que escrevem em prol de liberdade e não se submetem aos seus ditames.


domingo, 27 de julho de 2014

Hillary Clinton : A «rainha» que presidirá talvez ao destino dos Americanos



A Casa Real de Marrocos, à distância, aparece já apoiar a putativa candidata à Casa Branca e também a personalidade que, parece, melhor servir os seus interesses…

“Ela leva observadores e os entusiastas da política ao suspense, que esperam sobre brasas a sua decisão de se afirmar como candidata às eleições presidenciais de 2016. Mas Hillary Clinton, antes de pensar no Salão Oval, tem primeiro que superar as primárias democratas, passo que parece adquirido mas que, no entanto, pode esconder surpresas que possam perturbar os paradigmas existentes”.

Todo o artigo em:


O lobby marroquino e os direitos humanos




Na sequência da proposta norte-americana de dotar a MINURSO [Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental] de um mecanismo imparcial e independente de vigilância dos direitos humanos no Sahara Ocidental [Conselho de Segurança da ONU 2013], o povo saharaui ficou deveras surpreendido naquele momento, e acolheu a iniciativa com muita alegria e esperança, porque via pela primeira vez o caminho para o fim das torturas e das detenções arbitrárias que Marrocos leva a cabo desde o início do conflito até hoje.

Face a esta proposta, Marrocos utilizou os seus aliados no Conselho de Segurança com direito a veto e, através da França apoiada por Espanha no “Grupo de Amigos do Sahara”, fez fracassar a possibilidade da ONU poder, finalmente, vigiar os direitos humanos no Sahara Ocidental e, inclusive, chegou mesmo nesse momento a suspender umas manobras militares com o exército dos Estados Unidos da América.

Tal é o nervosismo da monarquia marroquina e o medo de manifestações pacíficas que exigem o referendo sobre a autodeterminação, reconhecido pela própria ONU e o contingente das Nações Unidas que está sobre o terreno desde 1991, que tinha e ainda tem a intenção de permitir a descolonização do território saharaui. Este medo e nervosismo é o calcanhar de Aquiles da estratégia marroquina, sustentada num discurso dirigido para o exterior, que apresenta Marrocos como um país democrático e que fez reformas importantes, como a Constituição de 2011 que, alegadamente, procurava limitar os poderes do rei e dotar os órgãos eleitos da gestão e decisão na vida política. Enquanto, por outro lado, as denúncias de torturas, de julgamentos sem garantias legais e a apresentação de civis ante os tribunais militares é o pão nosso de cada dia. Tudo isso misturado num poder absoluto nas mãos do monarca marroquino que, em vez de facilitar uma transição democrática, se apega à repressão e cede taticamente antes as organizações de direitos humanos para limpar a sua imagem, mas quando estas não estão no terreno e a MINURSO se mostra inoperativa, carrega sobre os manifestantes saharauis que pedem basicamente o direito de beneficiar dos seus recursos naturais, que cesse a pilhagem das riquezas do Sahara Ocidental e se aplique o direito à autodeterminação.

Ver todo o artigo em:

Fonte. Servicio Informativo Cultural S.I.C Poemario por un Sahara Libre
Autor. Ali Salem Uld Iselmu


sábado, 26 de julho de 2014

O rei e os seus correligionários




Os marroquinos sempre sonharam com uma União do Magrebe, mas à custa da causa saharaui. Não sabem que todos os seus apelos a uma reconciliação duradoura com a Argélia que passaria, segundo eles, pela reabertura das fronteiras, será em vão enquanto esta pedra angular na construção do Grande Magrebe, que é a questão saharaui, não for resolvida. Isto é o que ressalta do último discurso da Secretária de Estado marroquina dos Negócios Estrangeiros perante o Parlamento do seu país. Pede à Argélia a "assumir o seu papel de liderança", disse ela, no conflito do Sahara, enquanto, simultaneamente, acusava aquele país vizinho de impedir o processo de reconstrução da União do Magrebe Árabe.
 
O Enviado Pessoal do SG da ONU para o Sahara Ocidental, o embaixador norte-americano Christopher Ross, ladeado pela secretária de Estado e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos
Esta enésima tirada de um responsável oficial marroquino contra a Argélia confirma, pelo menos, duas coisas importantes: primeiro, que o Palácio não pretende cessar ou moderar a sua hostil campanha contra a Argélia, mesmo após o lamentável comportamento do seu ministro das Relações Exteriores, Mourad Mezouar; e que, além disso, Rabat também admite que nada se pode fazer no Magrebe sem o seu vizinho oriental. Isso explica esse frenesim, à beira da neurose, nas manobras e provocações que adota como estratégia.
Esta declaração da secretária de Estado dos NE dá uma ideia do que será a próximo discurso do Rei, por ocasião da Festa do Trono, que terá lugar em menos de uma semana. Converteu-se numa história patética e repetitiva o discurso de Mohamed VI: cada súplica de reabertura das fronteiras terrestres em nome da irmandade magrebina e a boa vizinhança, é seguida por uma declaração de guerra.

No seu último discurso, o governante alauita acusou a Argélia, nomeando-a – o que devia provocar uma reação de Argel -, de "sabotar a iniciativa da autonomia" marroquina [para o Sahara Ocidental]  que o seu governo quer impor fora do âmbito das Nações Unidas. Para ele, a força da Frente Polisario e as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas são apenas um reflexo de manipulações e manobras tecidas pela Argélia", “visceralmente anti marroquina". Com o seu tom alarmista, ao mesmo tempo ameaçador e suplicante, esse discurso tem apenas um só objetivo: aumentar a pressão e jogo das chantagens sobre o Sahara Ocidental, que continua a ser a pedra angular da política externa do Makhzen.

Por R. Mahmoudi

Algérie Patriotique, 23/07/2014