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terça-feira, 14 de julho de 2026

Parlamento Europeu exclui o Sahara Ocidental de tratado de aviação com Marrocos




O Parlamento Europeu aprovou formalmente, a 8 de julho, um protocolo técnico que adapta o Acordo Euro-Mediterrânico de Aviação entre a UE e Marrocos, com uma maioria esmagadora de 625 votos. O protocolo, criado nominalmente para integrar a Croácia no quadro bilateral de aviação existente após a sua adesão à UE, tem implicações políticas e jurídicas relevantes para a questão da descolonização daquele território, ao restringir explicitamente o acordo às fronteiras internacionalmente reconhecidas de Marrocos. 

"Ao restringir o tratado estritamente às fronteiras internacionalmente reconhecidas de Marrocos, o Parlamento Europeu reafirmou que o Sahara Ocidental é um território distinto e separado sobre o qual Rabat não tem qualquer mandato legal, administrativo ou de soberania", declarou o embaixador Oubi Buchraya Bachir, presidente do grupo de trabalho, criado para proteger a riqueza nacional saharaui e as questões jurídicas a ela associadas. Segundo o grupo, esta decisão legislativa reforça ainda mais a fronteira jurídica internacional que separa o Sahara Ocidental de Marrocos.

A decisão do Parlamento Europeu está alinhada com a jurisprudência europeia já estabelecida. Em 2024, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) decidiu de forma definitiva que os acordos entre a UE e Marrocos não podem ser aplicados ao Sahara Ocidental sem o consentimento do povo saharaui, reafirmando uma posição já assumida num acórdão de 2018, segundo o qual as companhias aéreas europeias não podem operar no espaço aéreo do território. Como esse consentimento nunca foi concedido, o TJUE concluiu que o acordo de aviação é juridicamente inaplicável ao espaço aéreo e aos aeroportos do Sahara Ocidental — uma posição que a própria Comissão Europeia já validou repetidamente, emitindo directivas às transportadoras aéreas da UE segundo as quais o acordo "não se aplica a rotas do território de um Estado-membro da UE para o território do Sahara Ocidental".

Apesar deste enquadramento legal, o embaixador Oubi lamentou que, na prática, a situação no terreno continue marcada por violações sistemáticas. Vários eurodeputados que votaram contra o protocolo apontaram diretamente essa contradição, acusando a Comissão Europeia de ignorar companhias aéreas europeias que operam rotas ilegais para cidades saharauis ocupadas. "Apesar de fronteiras jurídicas explícitas, várias transportadoras comerciais continuam a contornar o direito internacional para servir aeroportos nos territórios ocupados", afirmou Oubi.

Entre essas companhias, a irlandesa Ryanair é apontada como o caso mais grave, tendo lançado recentemente voos diretos entre aeroportos da UE e a cidade ocupada de Dakhla, operando inteiramente fora do âmbito legal do quadro UE-Marrocos. Também a Transavia, subsidiária do grupo KLM-Air France, mantém voos para o Sahara Ocidental ocupado, ignorando a inaplicabilidade jurídica do acordo bilateral entre a UE e Marrocos.

Para o Grupo de Trabalho Saharaui, o voto do Parlamento Europeu representa uma vitória política importante, que reforça a ilegalidade da ocupação marroquina. No entanto, o grupo considera que, enquanto a Comissão Europeia tolerar voos "pirata" de companhias como a Ryanair e a Transavia para o espaço aéreo saharaui ocupado, o Estado de direito continuará comprometido. O grupo reitera ainda que qualquer atividade económica ou comercial estrangeira no território e no espaço aéreo do Sahara Ocidental, sem o consentimento explícito do povo saharaui representado pela Frente Polisario, constitui uma violação direta do direito internacional e um apoio implícito a uma ocupação militar ilegal, apelando à União Europeia para que faça corresponder as suas decisões judiciais à aplicação efetiva das mesmas. (SPS) 

domingo, 21 de junho de 2026

UE hesita ratificar acordo com Marrocos devido a risco de nova derrota nos tribunais




A ratificação definitiva do acordo comercial entre a União Europeia e Marrocos continua bloqueada devido a dúvidas jurídicas e políticas relacionadas com a inclusão dos produtos provenientes do Sahara Ocidental no regime preferencial de comércio entre as duas partes.  

Segundo o jornal espanhol El Debate, a Comissão Europeia alterou em setembro de 2025 os acordos agrícola e das pescas com Marrocos para permitir, de forma provisória, a continuação das trocas comerciais envolvendo produtos oriundos do Sahara Ocidental, recorrendo a um procedimento de urgência que dispensou, numa primeira fase, a aprovação do Parlamento Europeu. 

No entanto, a ratificação definitiva terá de passar pela Eurocâmara, onde, segundo fontes citadas pelo jornal, a Comissão receia não reunir uma maioria suficiente. As dúvidas centram-se na conformidade da solução adotada com a jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), que tem reiterado que qualquer acordo aplicável ao Sahara Ocidental exige o consentimento do povo saharaui 

O artigo refere que Bruxelas tem vindo a adiar a votação enquanto procura assegurar apoios entre os diferentes grupos políticos do Parlamento Europeu. A preocupação da Comissão prende-se com a possibilidade de uma nova contestação judicial caso o acordo seja aprovado sem garantir o cumprimento das exigências definidas pelo TJUE.  

O debate ganhou relevância após as decisões do tribunal europeu que anularam os anteriores acordos agrícola e das pescas entre a UE e Marrocos, por considerarem que estes abrangiam o Sahara Ocidental sem o consentimento do seu povo. As sentenças reafirmaram ainda que o território possui um estatuto "separado e distinto" de Marrocos no âmbito do direito internacional. 

A Comissão Europeia tentou adaptar os acordos através de novas regras de rotulagem e de mecanismos destinados a demonstrar benefícios para a população saharaui, mas a legalidade dessas alterações continua a ser contestada por vários setores políticos e jurídicos. 

De acordo com o El Debate, a ausência de uma data para a votação final no Parlamento Europeu reflete a persistência das incertezas em torno do processo e mantém em aberto o futuro da relação comercial entre a União Europeia e Marrocos no que diz respeito aos produtos provenientes do Sahara Ocidental.

sábado, 21 de março de 2026

Comércio UE-Marrocos: Eurodeputados contestam a Comissão sobre o Sahara Ocidental

 

O eurodeputado Thomas Waitz apela a um intercâmbio mais direto, do tipo
«pingue-pongue», uma vez que a Comissão não respondeu às perguntas colocadas
pelos eurodeputados. A sala responde com aplausos.

WSRW - 19/02/2026 - Eurodeputados de todo o espectro político criticaram veementemente a Comissão Europeia pela forma como tem gerido as relações comerciais entre a UE e Marrocos no que diz respeito ao Sahara Ocidental ocupado, manifestando preocupações quanto à legalidade, à transparência e a um aparente desrespeito pelo papel do Parlamento.

A Comissão Europeia enfrentou fortes críticas por parte dos deputados ao Parlamento Europeu (MEPs) durante uma troca de pontos de vista na Comissão da Agricultura (AGRI) do Parlamento, realizada no dia 18 de março de 2025, à medida que aumentavam as preocupações quanto à legalidade, transparência e substância da sua abordagem às relações comerciais UE-Marrocos que abrangem o Sahara Ocidental.

A audiência decorreu no âmbito do novo regime comercial relativo aos produtos do Sahara Ocidental, ao abrigo do Acordo de Associação UE-Marrocos, aplicado a título provisório desde 4 de outubro de 2025. Tal facto contraria a oposição manifestada pelo Parlamento Europeu à aplicação provisória, uma vez que exclui o controlo parlamentar.

Veja o vídeo da audiência no site do Parlamento aqui. A transcrição completa do debate na Comissão AGRI pode ser consultada aqui.

Em representação da Comissão, Matthias Petschke (DG TAXUD) e Brigitte Misonne (DG AGRI) apresentaram o ponto da situação. As suas explicações, no entanto, pouco contribuíram para aliviar as tensões.

Petschke disse aos membros da Comissão da Agricultura que o acordo não é de natureza agrícola, uma vez que abrange todos os produtos provenientes do Sahara Ocidental, que, na prática, consistem principalmente em produtos da pesca, especificou. Baseou-se nos dados de importação de 2022 – uma escolha notável, dado que os dados da Comissão sobre as importações de Marrocos e do Sahara Ocidental estão incompletos desde o início do outono de 2025. A ausência de dados comerciais — a partir de setembro do ano passado — coincide com o período durante o qual a Comissão apressou asnegociações com Marrocos e fez passar o acordo pelo Conselho para aplicação provisória — contornando efetivamente o Parlamento. Petschke atribuiu a falta de dados ao facto de os Estados-Membros não terem partilhado conjuntos de dados completos.


Solução alternativa para a rotulagem rejeitada pelos eurodeputados

Misonne confirmou que o regime proposto reflete o acordo anterior — anulado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) em outubro de 2024 —, mas introduz uma alteração fundamental: um novo sistema de rotulagem baseado nas chamadas «regiões de origem». Ao abrigo desta abordagem — estabelecida num regulamento delegado, e não no próprio acordo — os produtos do Sahara Ocidental seriam rotulados utilizando os nomes regionais designados por Marrocos: Laâyoune-Sakia El Hamra e Dakhla-Oued Eddahab.
Em novembro de 2025, a maioria dos eurodeputados votou a favor darejeição da medida, mas a moção ficou a um voto do limiar necessário para impedir a sua adoção. O Regulamento Delegado entrou em vigor a 23 de dezembro de 2025.

Misonne descreveu a utilização das denominações «Laâyoune-Sakia El Hamra» e «Dakhla-Oued Eddahab» como «uma melhoria considerável em termos de informação aos consumidores».

Os eurodeputados de todo o espectro político discordaram veementemente.

Lynn Boylan (Esquerda, Irlanda), relatora permanente para o Magrebe, afirmou que «não se pode esperar que nenhum consumidor saiba o que estas regiões representam, de onde vêm estes produtos», e instou a Comissão a divulgar o parecer jurídico em que se baseia a sua posição.

Carmen Crespo Díaz (PPE, Espanha) salientou que «o Tratado da União Europeia refere-se à identificação dos países. É isso que deve constar no rótulo, e não as regiões.»

Cristina Guarda (Verdes/EFA, Itália) mostrou-se convencida de que esta abordagem servia apenas para «enganar os consumidores».

Misonne respondeu que a utilização de rótulos regionais garante que o território «já não é identificado como Marrocos», alegando que este era o cerne do acórdão do Tribunal. No entanto, esta interpretação ignora a exigência explícita do Tribunal de que os produtos devem indicar «apenas o Sahara Ocidental como país de origem».



Marrocos procura o apoio da UE para o seu papel no Sahara Ocidental

Durante o debate, surgiu uma questão particularmente controversa: Marrocos solicitou formalmente à UE autorização para emitir certificados de conformidade para produtos originários do Sahara Ocidental.

Esses certificados atestariam que os produtos cumprem as normas de comercialização da UE, incluindo as regras de origem. Misonne confirmou que a Comissão está atualmente a realizar uma missão no território para avaliar se deve ser concedido este papel a Marrocos.
Isto suscita preocupações jurídicas fundamentais. Conceder a Marrocos a autoridade para certificar produtos do Sa
hara Ocidental equivaleria, na prática, a reconhecer Marrocos como uma potência administrativa competente no território — uma posição que contradiz diretamente a conclusão consistente do TJUE de que Marrocos não tem soberania nem mandato de administração sobre o Sahara Ocidental.


«Completamente inaceitável»: Parlamento posto de lado

Outro importante ponto de discórdia foi o facto de a Comissão continuar a não ter transmitido formalmente a proposta ao Parlamento Europeu, impedindo assim o escrutínio democrático.

Embora o acordo alterado tenha entrado em aplicação provisória no início de outubro de 2025, o Parlamento ainda não recebeu o texto oficial. Os eurodeputados de vários grupos políticos criticaram esta abordagem, questionando como se espera que exerçam a sua função de supervisão sem acesso ao texto oficial.

«Completamente inaceitável», afirmou Lynn Boylan.

Mireia Borrás Pabón, [do partido espanhol Vox] (PfE , Espanha) acusou a Comissão de «passar por cima» do Parlamento e de «tentar contornar-nos», acrescentando: «Passaram seis meses e, basicamente, durante esse tempo, não houve qualquer contributo democrático.»

Petschke desviou a responsabilidade, afirmando que a transmissão do texto «não é da competência da Comissão» e sugerindo que os eurodeputados se dirigissem ao Conselho para obter respostas.


Falta de dados e preocupações com o mercado

A ausência de dados sobre importações desde setembro de 2025 também suscitou reações fortes.

Daniel Buda (PPE, Roménia), vice-presidente da Comissão AGRI, questionou: «Como vamos verificar o que se passa no mercado se não dispomos dos dados?»
Os eurodeputados manifestaram preocupações quanto ao impacto das importações na agricultura da UE. Borrás Pabón apontou para uma queda de 30 % na produção de tomate na região espanhola de Almería, descrevendo a falta de dados fiáveis sobre as importações como um «bloqueio de informação». Crespo Díaz citou números que revelam uma queda de 25 % nas exportações espanholas de tomate, a par de um aumento de 42 % nas importações provenientes de Marrocos e do Sa
hara Ocidental.

Jérémy Decerle (Renew, França) alertou: «A produção europeia está a diminuir, enquanto somos inundados com tomates marroquinos produzidos em condições mais favoráveis aos produtores marroquinos.»

Gilles Pennelle (PfE, França) manifestou a sua preocupação relativamente ao financiamento da UE prometido no âmbito do acordo para projetos de dessalinização na «zona em causa», concluindo: «Estamos a financiar aumentos nas exportações… o que irá prejudicar setores nos nossos países.»


O mesmo manual, os mesmos riscos jurídicos

A troca de palavras tensa na AGRI ecoa confrontos semelhantes noutras comissões parlamentares, sobre a forma como a Comissão lida com o Sahara Ocidental.

«Apesar de uma década de acórdãos consistentes do TJUE, a Comissão parece determinada a seguir uma abordagem que corre o risco de reproduzir as mesmas falhas jurídicas que levaram à anulação de acordos anteriores. Enquanto não for obtido o consentimento do povo saharaui, qualquer acordo que abranja o Sahara Ocidental permanece juridicamente vulnerável», afirma Sara Eyckmans, da Western Sahara Resource Watch. «Ao mesmo tempo, a dependência da Comissão em relação a procedimentos opacos — incluindo a aplicação provisória sem escrutínio parlamentar e o uso de práticas de rotulagem contestadas — suscita sérias preocupações quanto à transparência, à responsabilização e ao respeito pelo Estado de direito na política comercial da UE.»

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

«O impacto do acordo comercial entre a UE e Marrocos no futuro do processo de paz liderado pela ONU no Sahara Ocidental» - Conferência


 O Grupo “Amigos do Povo Saharaui no Parlamento Europeu” e a EUCOCO (Coordenadora Europeia de Apoio e Solidariedade com o Povo Saharaui) organizam amanhã, 10 de dezembro, uma conferência sob o título «O impacto do acordo comercial entre a UE e Marrocos no futuro do processo de paz liderado pela ONU no Sahara Ocidental». 

Serão oradores os eurodeputados Andreas Schieder (do grupo Socialistas e Sociais-Democratas (S&D), presidente do Intergrupo de Solidariedade com o Sahara Ocidental, Pernando Barrena (do grupo Esquerda GUE/NGL) e Ana Miranda Paz /grupo dos Verdes(Aliança Livre Europeia), alem de Pierre Galand, presidente da EUCOCO e Oubi Bouchraya, conselheiro especial do Secretariado da Frente POLISARIO. 

domingo, 30 de novembro de 2025

ENTREVISTA | Oubbi Buchraya, assessor especial do secretário-geral da Frente Polisario para os recursos naturais e assuntos jurídicos



“Ninguém entende a insistência do PSOE em ceder à chantagem de Marrocos, contra os interesses dos agricultores espanhóis”


El Independiente 30-11-2025 | Foi um dos arquitetos da ação judicial que, há um ano, levou o Tribunal de Justiça da União Europeia a anular os acordos pesqueiro e agrícola celebrados entre Bruxelas e Marrocos envolvendo o Sahara Ocidental, a antiga província espanhola. Oubbi Buchraya, um dos diplomatas saharauis mais reconhecidos, lidera agora a nova batalha judicial do Frente Polisario contra a Comissão Europeia e o seu esforço para continuar a negociar e pactuar acordos comerciais que incluam o território saharaui com o regime de Mohamed VI.

“A Polisario apresentará em dezembro um novo recurso contra este acordo no Tribunal Geral da UE, que é a primeira instância”, anuncia Buchraya em entrevista ao El Independiente, na qual se mostra especialmente crítico para com o PSOE, numa semana marcada pela votação no Parlamento Europeu que, por apenas um voto, não travou o polémico regulamento que permite etiquetar produtos saharauis como marroquinos, contrariando decisões da justiça europeia.

Os socialistas espanhóis foram decisivos para aprovar um regulamento celebrado pelo ministro Luis Planas, mas criticado por organizações agrícolas. À frente desse voto favorável aos interesses de Rabat esteve o ex-ministro Juan Fernando López Aguilar, já célebre pela frase com que resumiu a sua posição em 2023: “É preciso relacionarmo-nos com Marrocos com respeito mútuo; engolindo sapos, se necessário.”

Na próxima semana, Madrid acolhe a Reunião de Alto Nível entre Marrocos e Espanha.


Pergunta – Por apenas um voto o Parlamento Europeu não rejeitou o regulamento do novo etiquetado dos produtos provenientes do Sahara Ocidental negociado pela Comissão com Marrocos. Esperava um resultado assim?

Resposta – Ficámos a um só voto de derrubar esta parte do acordo, que é o etiquetado. Um ponto que toca o cerne da jurisprudência do Tribunal de Justiça da UE, o de que Marrocos e o Sahara Ocidental são dois territórios distintos e separados. A partir da votação de 26 de novembro abre-se uma dinâmica mais favorável para travar o acordo sem necessidade de voltar aos tribunais. Tecnicamente perdemos por pouco, mas politicamente ganhámos: houve uma maioria ampla e transversal que quebra a lógica tradicional do apoio com que conta o povo do Sahara Ocidental — antes, sobretudo a esquerda, os verdes e parte dos socialistas. Agora o impulso veio do próprio PPE, apoiado também por parte da extrema-direita e por setores dos Social-Democratas (S&D). À partida, tinha tudo para passar, já que os grandes grupos PPE e S&D o haviam apoiado.


P. – Houve pressões de Rabat, como no escândalo “MoroccoGate”?

R.- A sombra do Morocogate estará sempre presente no Parlamento Europeu e em todas as instituições europeias, e não apenas na Europa, mas em todas as partes do mundo. Mas em novembro de 2018, quando o acordo anterior foi submetido à Comissão da Agricultura, foi aplaudido e apoiado por uma maioria absoluta desta comissão e, em janeiro de 2019, foi aprovado por uma maioria de 444 votos. Agora, a balança mudou completamente. Na mesma Comissão da Agricultura, em 20 de novembro, todos os membros rejeitaram por unanimidade a rotulagem e a Comissão não encontrou nenhum argumento para convencer os parlamentares. Em 26 de novembro, 359 votos foram a favor, o que representa a maioria. Agora, a balança pende a nosso favor. Isto reflete uma dinâmica positiva ascendente, resultado de uma tomada de consciência por parte de grande parte dos eurodeputados sobre o perigo de continuar neste limbo jurídico. Também interpretamos isto como um aumento da compreensão em relação à  argumentação da parte saharaui, dos juízes e, posteriormente, da legalidade internacional.


«As pressões políticas são exercidas a partir das capitais e têm influenciado diretamente o voto...»


As pressões políticas são exercidas a partir das capitais e influenciaram diretamente a votação. De Paris sobre o grupo LFI, mas a prova mais clara disso é que o PSOE rompeu com a disciplina de voto, porque o S&D tinha ordenado a todos os seus deputados que votassem a favor, enquanto o Partido Socialista Espanhol foi quase o único partido deste grupo político que rompeu com a disciplina. Como o irão explicar aos seus colegas europeus da mesma formação, não sei!


P.- Na sexta-feira, o ministro da Agricultura espanhol, Luis Planas, reconheceu: «Fico contente por esta objeção apresentada por uma parte do Parlamento Europeu não ter sido aprovada, porque não corresponde à realidade; foi uma campanha política»...

R – Creio que não há nada a comemorar. Comemorar que se tenha votado contra o bom senso e a opinião do grupo político e da maioria da Câmara reflete um certo grau de obsessão que vai além de uma posição sensata. Nem os eurodeputados com quem nos reunimos, nem nós próprios compreendemos o motivo desta insistência do PSOE em abdicar do que deveria ser a sua política nacional para Marrocos, cedendo permanentemente à sua chantagem no quadro europeu, que é um contexto totalmente diferente.


P – Os agricultores espanhóis também não entendem. Porque razão o Governo apoia um regulamento contra os interesses dos seus próprios produtores?

R – Essa resposta deve ser dada pelo ministro e pelos deputados que votaram contra. O novo acordo com Marrocos é uma violação flagrante, tanto no procedimento como no fundo. Os eurodeputados estão a tornar-se aliados objetivos do povo saharaui nesta batalha, mas também os agricultores e os sindicatos agrícolas em Espanha e em França, principalmente. E se realmente os agricultores espanhóis e europeus tinham muitos problemas e sofriam para poder comercializar os seus produtos no mercado europeu por incapacidade de competir com os produtos marroquinos, que têm um custo de produção menor e são comercializados sem pagar quaisquer tarifas e taxas, com o novo acordo, este problema vai quadruplicar devido à promessa da Comissão Europeia de fazer investimentos maciços no Sahara Ocidental em termos de água, irrigação e energia.

Isso daria realmente a Marrocos a possibilidade de ampliar os campos de cultivo desses produtos nas zonas ocupadas do Sahara Ocidental. E se o volume de exportação já era elevado, agora multiplica-se realmente por 10 ou por 20, o que complica muito mais as coisas. A questão aqui é como é possível que uma formação política coloque os interesses de terceiros, neste caso Marrocos, acima dos seus próprios agricultores e dos seus próprios cidadãos.


«Se o volume de exportação de Marrocos já era elevado, agora multiplica-se por 10 ou por 20, o que complica muito mais as coisas...»


P.- Acha que o efeito deste novo acordo poderá ser uma avalanche de produtos marroquinos falsificados...

R.- A longo prazo, sim. Porque se a Comissão Europeia se comprometer a ajudar Marrocos a desenvolver o sistema de água, irrigação e energia, Rabat, que enfrentava dificuldades para desenvolver a agricultura nessas zonas com escassez de água, teria mais possibilidades de produzir mais e, consequentemente, exportar mais para o mercado comunitário. A concorrência entre os agricultores europeus e marroquinos passa simplesmente de desleal a impossível.


P.- Há esperança de que o regulamento de rotulagem possa ser revogado pelo próprio Parlamento Europeu? Haverá mais votações?

R.- Esperamos que este acordo possa ser revogado sem que os juízes tenham de se pronunciar novamente. Agora inicia-se outro processo no Parlamento Europeu e na sua comissão de Comércio Internacional para solicitar um parecer consultivo ao Tribunal de Justiça da União Europeia sobre se este acordo, na sua nova forma, respeita ou não as sentenças de 4 de outubro de 2024. Estamos perante uma violação clara e flagrante das sentenças do TJUE. A outra oportunidade é quando chegarmos à segunda fase deste processo, porque agora foi assinado como aplicação provisória, mas o Parlamento tem de o ratificar. Será outra oportunidade para o derrubar. Depende do calendário, mas, a priori, a votação tem de ocorrer durante os primeiros três meses do próximo ano.


P. – O Frente Polisario vai recorrer o acordo?

R.- Independentemente do resultado no Parlamento Europeu, a Polisario apresentará um novo recurso contra este acordo em dezembro perante o Tribunal Geral da UE, que é a primeira instância. Vamos recorrer da assinatura do acordo na sua forma de aplicação provisória. E quando o acordo for concluído, mediante a ratificação e o voto dos Estados e o voto dos parlamentares, recorreremos do novo acordo na sua forma final concluída. De acordo com os procedimentos do tribunal, se o novo acordo formalmente concluído e ratificado pelo Parlamento for recorrido, o primeiro recurso caduca e o tribunal examinará apenas o novo, que se baseia no acordo final concluído.


«Ninguém consegue realmente compreender como é possível negociar um acordo de tal magnitude, de tal dimensão, com todas as implicações que tem, tanto políticas, diplomáticas, económicas e legais, em apenas cinco dias.»


P.- Com base na experiência anterior, o resultado dessas ações judiciais poderia ser uma nova anulação?

R.- Claramente. Primeiro, o acordo, independentemente de ter sido violado na forma ao negociar com Marrocos durante alguns meses sem qualquer autorização formal por parte do Conselho, a Comissão obteve a aprovação para iniciar as negociações com Marrocos a 10 de setembro e confirmou o acordo a 15 de setembro. Ninguém consegue realmente entender como é possível negociar um acordo de tal magnitude, de tal dimensão, com todas as implicações que tem, tanto políticas, diplomáticas, económicas e legais, em apenas cinco dias. Especialmente quando sabemos que o acordo anterior demorou quase nove meses a ser concluído. Isto confirma a suspeita de que a Comissão tem vindo a negociar com Marrocos, desde alguns meses antes de outubro de 2024, nas costas dos países membros. E depois, quando quiseram obter as autorizações para a assinatura do acordo, escolheram a via expressa, que é a votação por escrito dos países membros, sem qualquer possibilidade de abrir o debate sobre o acordo. Também é questionável a aplicação provisória, que exclui o Parlamento de ter qualquer palavra sobre uma negociação às costas do povo do Sahara Ocidental, que é o titular do direito à autodeterminação e que tem de dar o seu consentimento.

A Comissão baseou-se na janela excepcionalmente aberta pelo Tribunal de Justiça, que é o consentimento implícito. Para entender que houve tal consentimento, o tribunal blindou a noção de benefício ou criação de direitos com uma série de condições (concreto, substancial, verificável e proporcional à exploração dos recursos naturais). O que foi feito, em vez de interpretar esta janela no contexto da jurisprudência do tribunal, foi que as duas partes se apressaram a fazer uma interpretação abusiva que, em vez de adaptar a realidade que rodeia o acordo ao direito, optaram por adaptar o direito à realidade da ocupação. Assim, violaram o espírito da decisão do Tribunal. Violaram-no porque o Tribunal afirma que qualquer acordo assinado com Marrocos e que envolva os recursos naturais do Sahara Ocidental não pode criar qualquer obrigação para o povo do Sahara Ocidental, sendo este uma terceira parte no acordo. Se a comissão adotar a denominação administrativa que Marrocos utiliza para se referir às duas zonas ocupadas do Sahara Ocidental — «El Aaiún-Sakia El Hamra» ou «Dajla-Ued Eddahab» —, estará a adotar exatamente o léxico administrativo da ocupação marroquina.


«O que a Comissão Europeia faz é precisamente adotar o léxico administrativo da ocupação marroquina.»


Isto reflete realmente um certo reconhecimento da soberania de Marrocos sobre o Sahara Ocidental e viola o que foi decidido pelo Tribunal quando solicitou que os produtos ostentassem a etiqueta do Sahara Ocidental como país de origem com o código internacional reconhecido para este território, que é EH. Desde o início, cria-se uma obrigação para o povo saharaui, e o acordo cairá talvez sem necessidade de argumentar a questão dos direitos – benefícios.


P.- O novo acordo comercial negociado em segredo pela CE inclui investimentos em projetos de infraestrutura no território ocupado e um aumento da ajuda humanitária da UE aos campos de refugiados saharauis...

R. – Se entrarmos nos detalhes desses benefícios, a verdade é que o acordo beneficia apenas o país ocupante e não o povo do Sahara Ocidental. A Comissão compromete-se a fazer investimentos nos setores de dessalinização da água, irrigação e energia, entre outros. Mas estes são investimentos que ajudam Marrocos a consolidar a sua ocupação económica do território e em nenhum momento criam direitos ou benefícios concretos, substanciais, verificáveis e proporcionais para o povo do Sahara Ocidental na parte ocupada do território. O Tribunal faz uma distinção clara entre o que é o povo, titular do direito à autodeterminação, e a população que reside hoje no território do Sahara Ocidental, composta na sua maioria por colonos marroquinos. E quando tentam beneficiar a parte do povo do Sahara Ocidental refugiada, a Comissão diz que se compromete a intensificar a ajuda humanitária ao povo do Sahara Ocidental. Mas a ajuda humanitária é caridade. Não se pode fazer caridade a uma pessoa com os seus próprios bens, com os seus próprios meios, com as suas próprias propriedades. A UE contribui há muitos anos para o esforço internacional de ajuda humanitária, mas isso não tem nada a ver com o acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia.


P. – A Comissão tem luz verde para negociar um novo acordo de pesca com Marrocos. O que fará a Frente Polisario?

R. – O acordo de pesca seria ainda mais flagrante do que o acordo comercial, porque o Tribunal de Justiça o anulou com efeito imediato. Em segundo lugar, no que diz respeito ao acordo de pesca, a exploração é feita diretamente pela União Europeia. É um acordo que beneficia Marrocos ao consolidar a sua ocupação económica do território, mas ainda mais perigoso é consolidar a sua política de colonização demográfica do território. Porque o acordo de pesca está dividido em três partes, a primeira das quais é o apoio setorial, que representa mais ou menos um terço do volume deste acordo, para apoiar os assentamentos das pequenas aldeias de pescadores marroquinos que estão instaladas na costa saharaui, de norte a sul. E isso realmente apoia o que é a colonização demográfica do território no Sahara Ocidental. Nós também vamos recorrer. Não creio que a Comissão tenha a possibilidade de avançar para uma aplicação provisória, porque o acordo foi anulado sem qualquer possibilidade de prorrogação de um ano em vigor, como foi feito com o acordo comercial. Tem necessariamente de passar pelo Parlamento Europeu.

Oubbi Buchraya

Não somos contra os interesses dos pescadores, sobretudo espanhóis. Estamos dispostos a oferecer e a contribuir para que os pescadores europeus continuem a pescar no Sahara Ocidental, mas em conformidade com o acórdão do Tribunal de Justiça da UE. E se a Comissão quiser sentar-se com o representante legítimo do povo do Sahara Ocidental para negociar isso, estamos mais do que dispostos a fazê-lo.


P.- Durante este último ano desde a sentença, a Comissão entrou em contacto com a Polisario em algum momento?

R.- Não. Isso deve ser perguntado à Comissão, mas entendo que houve um veto por parte de Marrocos: «Se falarem com a Polisario, nós estamos fora disso».


«Estamos a trabalhar com algumas empresas para denunciar a sua atividade no Saara Ocidental.»


P.- Que medidas irá a Polisario tomar contra as empresas europeias - incluindo espanholas - que estão a investir nos territórios ocupados? O que enfrentam as empresas europeias que estão neste momento a pensar investir no Sahara?

R.- Para nós, as empresas de direito europeu, desde a decisão do TJUE, perderam o enquadramento jurídico para continuar a fazer negócios no Sahara Ocidental ocupado. Estamos a trabalhar com algumas empresas para denunciar a sua atividade no Sahara Ocidental e temos toda a esperança de que isso possa prosperar. O comissário dos Transportes e Turismo já afirmou, relativamente à atividade da Ryanair e ao seu voo entre Madrid e Dakhla, que o acordo de aviação entre a União Europeia e Marrocos não abrange, em caso algum, o espaço aéreo do Sahara Ocidental e que qualquer companhia que opere voos a partir de uma cidade europeia para uma cidade ocupada do Sahara Ocidental estaria a violar o direito europeu e o direito internacional. E essa é realmente a interpretação correta das decisões do TJUE. Por conseguinte, privilegiamos a comunicação política com as empresas para as convencer a retirarem-se do território. Mas se não nos quiserem ouvir ou não corrigirem a sua atitude, somos obrigados a denunciar esta situação nos diferentes países europeus. Marrocos falhou em impor o facto consumado através da ocupação militar e falhou em impor o facto consumado através da colonização demográfica.

Agora está a tentar impor o facto consumado através da ocupação económica do território e envolvendo atores estrangeiros para lhe conferir legitimidade e gerar uma certa dependência do comércio europeu. Sabemos qual é o objetivo de Marrocos e temos de o impedir. Temos os instrumentos legais suficientes para o fazer.


P.- A recente resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas encorajou Marrocos. Receia que a utilizem para justificar a exploração dos recursos naturais do Sahara?

R.- Marrocos aproveita-se de tudo, até das suas próprias ilusões, para lançar este tipo de ações. Em França, fizeram-no através da Agência Económica Oficial de Desenvolvimento, apelando às empresas francesas para que se instalassem no Sahara Ocidental e fizessem negócios. É a grande aposta de Marrocos e dos seus aliados. E certamente Marrocos utilizará esta pequena preferência incluída na última resolução do Conselho de Segurança, exatamente para elaborar o seu discurso e as suas narrativas e tentar convencer os investidores internacionais. E é aí que temos a obrigação de frustrar isso através de ações concretas.


«Estima-se que os dois acordos da União Europeia com Marrocos representem cerca de 800 milhões de euros anuais em perdas para os saharauis devido à pilhagem dos seus recursos.»


P.- Qual é o valor económico estimado da pilhagem dos recursos naturais do Sahara nos últimos anos?

R.- Estima-se que os dois acordos da União Europeia com Marrocos representem cerca de 800 milhões de euros por ano. Depois, há os investimentos diretos das empresas europeias e a pilhagem por parte de outros atores fora da União Europeia. A verdade é que Marrocos não teria conseguido sustentar a sua ocupação militar do território do Sahara Ocidental se não fosse a possibilidade de a financiar através da pilhagem dos recursos naturais deste território. São valores realmente muito elevados e nós, claro, tencionamos reclamar indemnizações à União Europeia. A Comissão está instalada nesta lógica de desafio contínuo à palavra dos juízes e aos direitos do povo do Sahara Ocidental, sem qualquer limite.

Estamos dispostos a dialogar com a Comissão, já o expressámos várias vezes. Poderíamos ter evitado todos estes litígios e este limbo jurídico se a UE tivesse tido uma atitude diferente connosco. Com a Palestina, este desgaste judicial não existe porque tanto a Comissão como o Conselho discutem sempre e abertamente com a OLP e a Autoridade Palestiniana. Não é o caso connosco. É lamentável. Lamentável e triste, sabendo que a Frente Polisario fez uma aposta estratégica, desde os anos 90, na possibilidade de recuperar os nossos direitos por via legal e pacífica, sem necessidade de recorrer à luta armada. Infelizmente, a comunidade internacional no seu conjunto e, muito especialmente, a UE desapontaram-nos. E se hoje há guerra no Sahara Ocidental, é precisamente por isso.