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quinta-feira, 20 de março de 2025

Sahara Ocidental: Porto recebeu o reitor da Universidade de Tifariti para conferência sobre conflito

 

Alexander Zhukov, investigador do CEAUP, e Mulai Emhamed Brahim, novo reitor da Universidade de Tifariti

A situação no Sahara Ocidental foi tema de uma conferência na terça-feira, na Universidade do Porto, num contexto de reacendimento do conflito armado, na sequência da violação do cessar-fogo em 2020 por Marrocos.

"O caso do Sahara Ocidental: exemplo de um conflito por resolver" contou com a presença de Mulai Emhamed Brahim, novo reitor da Universidade de Tifariti (UT), única instituição de ensino superior situada num campo de refugiados e símbolo de resistência, mantendo protocolos de cooperação com universidades europeias, africanas e latino-americanas.

Alexander Zhukov, investigador do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP), que organizou a conferência, disse à Lusa que a vinda a Portugal do novo reitor da Universidade de Tifariti surge no âmbito dum protocolo de cooperação entre o CEAUP e a Universidade de Tifariti (UT) assinado em outubro de 2018.

“O CEAUP é, até ao momento, a única instituição de pesquisa em Portugal que formalizou a cooperação com a Universidade da República Árabe Saharaui Democrática. Esta circunstância explica que tenha sido através de iniciativas do CEAUP que boa parte das ações de pesquisa, debate ou divulgação sobre as realidades do Sahara Ocidental se fizeram na academia portuguesa”, indicou.

Zhukov referiu que a visita do novo reitor Mulai Emhamed Brahim, em funções desde o ano passado, integra-se na cooperação entre os dois estabelecimentos de ensino superior e “aproveita uma visita de trabalho que a actual equipa reitoral saharaui fez à Universidade de Coimbra”.

Alexander Zhukov acrescenta que o CEAUP é, em conjunto com universidades espanholas, alemãs, francesas e argelinas, uma das instituições que contribuiu para a organização do Centro de Investigação da UT (CIUT), em 2023.

O conflito do Sahara Ocidental é o último caso de colonialismo em África na agenda da descolonização da ONU.

O Sahara Ocidental foi até 1975 um território colonial espanhol. A resistência anticolonial começou no final dos anos 1950, no âmbito da independência de Marrocos em 1956.

A partir de 1969, consolidou-se um movimento saharaui de resistência, que em 1973 se reorganizou sob a designação de Frente Polisario - acrónimo que significa Frente Popular de Libertação de Saguia el Hamra e Rio do Ouro, os territórios do então Sahara espanhol, lembrou o investigador da Universidade do Porto.

“Na sequência da mudança de regime, o governo espanhol decidiu não cumprir o compromisso, assumido pelas Nações Unidas (ONU), de organizar um referendo de autodeterminação e em novembro de 1975 negociou a divisão do território entre Marrocos e a Mauritânia”, disse.

Na breve síntese histórica, o investigador da Universidade do Porto destaca que nas duas décadas seguintes o Governo de Rabat foi “introduzindo colonos na região”, o que protelou o referendo e levando a “sucessivos planos de autonomia, soluções a que os seus aliados europeus têm vindo a dar adesões oficiosas”.

Em novembro de 2020, face a este impasse as duas partes envolveram-se numa segunda guerra que dura até hoje.

 


Sahara Ocidental: Reitor da Universidade de Tifariti pede a Portugal apoio contra bloqueio mediático marroquino

O reitor da Universidade de Tifariti, do Saara Ocidental, durante a sua intervenção na Universidade do Porto, pediu ao Governo português para combater o bloqueio mediático de Marrocos que proíbe delegações parlamentares e jornalistas portugueses de visitar o território saharaui.

“Há um bloqueio mediático de Marrocos que não deixa nenhuma delegação parlamentar portuguesa, nem equipas jornalísticas portuguesas de visitarem a zona ocupada do Sahara Ocidental”, denunciou o reitor da Universidade de Tifariti, Mulai Emhamed Brahim, à margem de uma conferência na Universidade do Porto, a decorrer num contexto de reacendimento do conflito armado, na sequência da violação do cessar-fogo em novembro de 2020 por Marrocos.

Numa entrevista em exclusivo à Lusa, à margem da conferência "O caso do Sahara Ocidental: exemplo de um conflito por resolver", organizada pelo Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP), o reitor apelou também para que Portugal “respeite totalmente a sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia sobre os acordos das pescas”.

Questionado pela Lusa sobre o que pediria hoje ao Governo português, Mulai Emhamed Brahim disse que “em primeiro lugar” pediria ao governo de Portugal para que “respeitasse totalmente a lei internacional”

Depois pediria também a Portugal para respeitar “totalmente a sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia que disse, claramente, que o território do Sahara Ocidental e o território de Marrocos são dois territórios separados e distintos”.

“Também pediria que este Governo [português] respeite o apoio das delegações portuguesas que visitam o território ocupado Saharauí”.

Brahim defendeu ser “preciso abrir a porta à sociedade civil portuguesa para poder organizar e ou participar em eventos de sensibilização sobre a causa do Sahara Ocidental, um território ocupado por Marrocos desde 1975”.

Em fevereiro, a eurodeputada portuguesa Catarina Martins foi retida no aeroporto internacional El Hassan I, em El Aaíun, no Sahara Ocidental, para onde tinha viajado numa missão do Parlamento Europeu, com outros eurodeputados.

Brahim é o novo reitor da Universidade de Tifariti (UT), única instituição de ensino superior situada num campo de refugiados e símbolo de resistência, que mantém protocolos de cooperação com universidades europeias, africanas e latino-americanas.

 

"Não espero decisões importantes do governo de Portugal" – diz o Reitor

O reitor da Universidade de Tifariti, do Sahara Ocidental, disse não esperar decisões importantes de Portugal para a causa do Sahara Ocidental, por ser um dos beneficiários dos acordos de pescas entre Marrocos-União Europeia.

“Não espero que haja, oficialmente, decisões importantes de Portugal sobre o contexto atual do Sahara Ocidental, mas acreditamos que o Governo português não mude a sua posição sobre a causa jurídica da autodeterminação do povo saharauí”, declarou à Lusa o reitor da Universidade de Tifariti, Mulai Emhamed Brahi.

 O reitor considerou que Portugal “está a jogar um papel com Espanha e França sobre a última solução da sentença da justiça europeia sobre a ilegalidade do acordo económico entre Marrocos e a UE que incluíam o território do Sahara Ocidental”.

“Na batalha jurídica sobre a exploração dos recursos naturais do povo saharaui, Portugal está com França e Espanha, que são aliados de Marrocos. Então, não espero decisões importantes de Portugal, oficialmente, no contexto atual, mas acreditamos que o governo de Portugal não mude a sua posição sobre a causa jurídica da causa jurídica da autodeterminação”, disse.

Em outubro do ano passado, o Tribunal de Justiça da UE decidiu a favor do povo saharau e confirmava que os acordos de pesca e agricultura, assinados em 2019 entre Marrocos e UE deviam ter obtido o consentimento do povo do Sahara Ocidental.

O Tribunal concedeu 12 meses – até outubro deste ano - antes de executar o veredito agrícola para evitar "graves consequências negativas para a ação externa da União".

Fonte: LUSA

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Preocupação com os defensores dos direitos humanos no Sahara Ocidental


Aminatou Haidar, galardoada com o Prémio Right Livelihood 2012

A Right Livelihood – [organização internacional de defesa dos DDHH, criada em 1979 por Carl Wolmar Jakob Freiherr von Uexküll, escritor, conferencista, filantropo, ativista e ex-político] - está profundamente preocupada com a escalada da violência no Sahara Ocidental e, em particular, com as violações cometidas pelas autoridades marroquinas contra os defensores dos direitos humanos saharauis. Entre eles, Aminatou Haidar (laureada em 2017 com o prémio Right Livelihood) e a sua companheira ativista Sultana Khaya, que enfrentam sérias retaliações por terem falado abertamente sobre o direito do povo saharaui à autodeterminação.

Já passou mais de um ano desde que as forças de segurança marroquinas cercaram pela primeira vez a casa de Khaya e a detiveram à força, sem qualquer base legal, a ela e à sua irmã. Desde então, a família de Khayas tem estado sob prisão domiciliária de facto, suportando ataques ilegais e violentos, violações, agressões físicas e sexuais, negação de tratamento médico, exposição à COVID-19 e a substâncias tóxicas.

Khaya é uma mulher saharaui proeminente defensora dos direitos humanos, Presidente da Liga para a Defesa dos Direitos Humanos e contra a Pilhagem de Recursos Naturais, e membro da Instância Saharaui contra a Ocupação Marroquina (ISACOM). Desde Setembro de 2020, quando Aminatou Haidar criou a ISACOM, vários membros da sua direção executiva, incluindo Khaya, têm sido sujeitos a graves violações dos direitos humanos.

A 15 de Novembro de 2021, as forças policiais saquearam a casa da família Khaya de manhã cedo e violaram Khaya e a sua irmã enquanto a sua mãe estava presente. Alguns dias antes, foi noticiado que as forças de segurança marroquinas tinham agredido Khaya e injetado nela uma substância desconhecida que a deixou fisicamente doente. Nesse dia, a sua irmã e a sua mãe idosa foram também atacadas e sexualmente agredidas pelos oficiais, que as ameaçaram de morte.

Haidar e outras companheiras da ISACOM foram também vítimas da polícia marroquina. A 9 de novembro de 2021, foram detidas num posto de controlo em El-Ayoun e impedidas de deixar a cidade para chegar à cidade vizinha de Bojador para visitar Khaya, após os terríveis ataques que ela sofrera. Após a publicação de um vídeo onde Haidar se pronuncia contra a ocupação marroquina, uma ONG marroquina, o Secretariado-Geral da Organização Marroquina dos Direitos Humanos e Anti-Corrupção, apresentou uma queixa ao Procurador-Geral do Tribunal de Cassação de Rabat para investigar Haidar por "incitar contra a integridade territorial do reino", em flagrante violação do seu direito à liberdade de opinião e de expressão.

Em 2021, os Procedimentos Especiais da ONU condenaram repetidamente as represálias contra Khaya, Haidar e outros membros da ISACOM. O Secretário-Geral da ONU António Guterres denunciou ainda o tratamento de Haidar nos seus dois últimos relatórios anuais sobre represálias contra os defensores dos direitos humanos.

A Right Livelihood condena nos termos mais veementes as violações horrendas cometidas contra Khaya e a sua família e apela ao fim imediato das suas detenções domiciliárias de facto. As agressões sexuais e físicas contra elas devem ser imediatamente investigadas, com vista a levar os perpetradores à justiça e a proporcionar soluções.

Finalmente, à luz da deterioração da situação no Sahara Ocidental, apelamos ao Gabinete do Alto Comissário para os Direitos Humanos a enviar urgentemente uma missão de observação aos Territórios Ocupados, a investigar todas as violações dos direitos humanos cometidas contra o povo saharaui e a assegurar o respeito pelas liberdades fundamentais, incluindo a liberdade de expressão, associação e liberdade de circulação. O facto de não se pronunciar contra a injustiça dá licença a Marrocos para agir com total impunidade.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

O bombardeamento marroquino contra 3 camionistas argelinos não teve lugar na zona tampão mas a mais de 70 km do muro de defesa das forças ocupantes


Abdelkader Taleb Omar

Argel, 10-11-2021 (APS) - O embaixador da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) na Argélia, Abdelkader Taleb Omar disse esta terça-feira que a zona onde o regime marroquino visou e atingiu dois camiões argelinos no eixo que liga a Argélia à Mauritânia, causando a morte de três argelinos, é uma passagem para camiões comerciais não localizados na zona tampão, estando a mais de 70 km da faixa de defesa, ao contrário do que é propalado pelo regime marroquino.

Taleb Omar, que recebeu terça-feira na embaixada uma delegação da Organização de Reformados do Exército Nacional Popular (ANP) da Argélia, disse que esta zona é uma passagem para camiões comerciais, explicando que a estrada é "arenosa e difícil de conduzir", pelo que os camionistas são obrigados, à chegada da fronteira nordestina do Sahara, a desviar-se para perto dos territórios saharauis na região de Bir Lahlou.

A área onde ocorreu o ataque situa-se a mais de 70 km do muro de defesa e não está localizada na zona tampão, que se estende por uma faixa de 30 km de largura, disse ele.



O bombardeamento não foi causado pela explosão de minas anti-pessoal, que estão localizadas perto da cintura de defesa, garantiu o embaixador.

O diplomata saharaui aproveitou a oportunidade para expressar as suas condolências ao povo argelino, na sequência do assassinato dos três cidadãos argelinos, sublinhando que esta agressão do regime marroquino contra inocentes indefesos mostra a natureza deste regime que vai contra as regras da boa vizinhança.

A Organização Nacional do Exército Popular Reformado (ANP), afirmou na terça-feira o seu apoio inabalável ao direito do povo saharaui à autodeterminação, denunciando as violações e abusos dos direitos humanos do regime marroquino que ameaçam a segurança e a estabilidade dos povos da região.





A delegação da Organização dos Reformados do Exército Nacional Popular (ANP) deslocou-se à sede da embaixada da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) para expressar a solidariedade da organização e o apoio do povo argelino ao povo saharaui na sua luta legítima contra o ocupante marroquino e pela recuperação da sua soberania sobre todos os territórios ocupados.

sábado, 16 de outubro de 2021

DE MAHBES, O PONTO MAIS QUENTE DO CONFLITO - Sobre a ofensiva que Marrocos nega: "O objetivo da Polisario é a guerra de desgaste".

 


EL INDEPENDIENTE - FRANCISCO CARRIÓN - (texto e fotos) | ACAMPAMENTOS SAHARAUIS (ENVIADO ESPECIAL)

16/10/21

Ao fim da tarde, enquanto os raios de sol se dissipam no horizonte, o comandante Baali Hamudi e o seu pelotão de soldados deslizam por um topo árido. Do promontório, podem ver o muro e, a cerca de oito quilómetros de distância, o radar de uma base militar marroquina. O quartel é o alvo de uma operação que a Frente Polisario assinala alguns minutos mais tarde, aproveitando os últimos feixes de luz do dia.

Baali Hamudi, um veterano combatente saharaui, lidera um dos esquadrões na sexta região militar da Polisario, nos confins de Mahbes, um enclave demarcado pelo muro que se estende através da parte norte do Sahara Ocidental, no triângulo formado pelas fronteiras de Marrocos, Argélia e Mauritânia. "É um sector muito ativo. A sua intensa atividade mostra claramente as ações da guerra durante o último ano", adverte o comandante, que tem uma tez escura, um bigode cinzento e uma figura enxuta.

Em novembro passado, a Frente Polisario retomou uma guerra que estava hibernada há três décadas. O presidente da autoproclamada República Árabe Saharaui Democrática, Brahim Ghali, decretou então "o fim do compromisso de cessar-fogo" e o reinício da "luta armada em defesa dos legítimos direitos do povo saharaui". Desde então, Mahbes tem sido a frente mais frenética num conflito armado cuja existência nem sequer é reconhecida pelo regime de Alauita.

O último relatório do Secretário-Geral da ONU, publicado no início deste mês, indica que 83% dos cerca de 1.000 incidentes de tiroteio de longa distância contra unidades militares marroquinas foram localizados em Mahbes. Uma cifra de que o experiente comandante  se vangloria com orgulho indisfarçado. "Em novembro de 2020, foi aberto um novo capítulo na nossa terra. A comunidade internacional não soube resolver o conflito em 29 anos e essa frustração é partilhada por todos, especialmente entre os jovens", explica o homem fardado no precário campo militar que, camuflado numa planície de arbustos, serve de base às suas operações.


«A guerra é sempre a mesma, agora e no passado. Não há guerras pequenas nem grandes»

MAHMUD SALEM, MILITAR DA FRENTE POLISARIO

 

Novas gerações

Entre os jovens militares que povoam o deserto está Omar Deidih: "Sou um soldado e um militante do Exército Popular Saharaui", diz o jovem de 23 anos, no seu espanhol polido pelos seus verões em Espanha e pelos seus estudos em Cuba. "A revolução não é uma opção mas uma responsabilidade", proclama com confiança. A maioria dos seus camaradas de luta tem menos de trinta anos.



Apesar da calma, não é um dia comum para o esquadrão liderado por Baali Hamudi, filho de um presidente de câmara franquista que se juntou às fileiras da Polisario pouco depois do nascimento do movimento para exigir o fim do controlo espanhol do enclave e reivindicar a independência, ainda hoje esquivo. Os soldados sob o seu comando são visitados por um grupo de jornalistas espanhóis. E a unidade prepara uma ação que empreende a meio da noite.

"Os mais velhos são cada vez em menor número, mas os jovens têm uma vontade mais forte do que nós. Falta-lhes muita experiência, mas é precisamente por isso que estamos aqui", admite Mahmud Salem, um homem de 60 anos que partilha o comando com o comandante e mostra as suas divisas pouco antes de partir para a frente. "Estou nas trincheiras desde 1977. A guerra é sempre a mesma, agora e no passado. Não há pequenas ou grandes. Guerra é guerra", amaldiçoando aqueles que sempre viveram entre as suas pregas.

 

Ataque a uma base militar marroquina

Minutos mais tarde, uma caravana de veículos «todo-o-terreno» percorre o deserto, dirigindo-se para a linha da frente onde um BM-21 Grad, o lendário sistema de foguetes de lançamento múltiplo de fabrico soviético, aguarda ordens. O seu alvo é o radar Stentor da base 19 do do 43º batalhão do Exército Real Marroquino. Um dispositivo concebido para detetar alvos móveis, tais como infantaria, helicópteros, aviões de baixo voo ou veículos terrestres.

Um rugido, seguido de um clarão de luz, atravessa o céu. Em segundos, atinge o horizonte. A ação é respondida por Marrocos. Dois morteiros de 120 milímetros caem, segundo a Polisario, a 500 e 300 metros da colina a partir da qual o muro é visível. Um terceiro atinge uma posição próxima do graduado. Nessa altura, a caravana já voltou para trás, dirigindo-se para a base. No escuro, com o brilho da lua crescente, a caravana afasta-se da linha da frente. Uma escaramuça semelhante foi executada por outra unidade a cerca de 100 quilómetros de distância.




"A nossa missão é levar a cabo uma cadeia de fustigamentos, visando os setores mais fracos e mais sensíveis. O objectivo é uma guerra de desgaste", confirma Baali Hamudi. A ONU reconhece que, apesar da recusa de Marrocos em reconhecer a escalada, "hostilidades de baixa intensidade" têm tido lugar desde novembro, com disparos esporádicos através da berma ao pé do muro. "Foi isto que nos permitiu tomar a iniciativa. São eles que, para além da sua capacidade militar, estão na defensiva. O exército marroquino é um exército entrincheirado, incapaz de controlar o momento em que vai ser atingido", diz o comandante. Como excepção, cita um comboio de civis saharauis alvoo do exército alauita a 18 de agosto.

Os combates, em declínio desde janeiro, concentram-se na região de Mahbes, na paisagem acidentada das suas zonas libertadas, numa porção do muro, na sua maioria areia que, ao longo de 2.700 quilómetros, separa as terras ocupadas por Marrocos das terras controladas pela Polisario. Em fevereiro, uma incursão reivindicada pelos saharauis no sector Agha obrigou Rabat a construir uma nova secção do muro. Desde o fim das tréguas, fontes da Polisario afirmam que os combates deixaram nove mortos e cerca de vinte feridos entre as suas fileiras. Marrocos, no entanto, não tornou públicas quaisquer cifras de vítimas.

 

«A nossa missão é levar a cabo ataques de fustigamento em cadeia, visando os setores mais fracos e mais sensíveis.»

BAALI HAMUDI, COMANDANTE DA FRENTE POLISARIO


Baixas inimigas

"Sabemos pelos funerais que têm sido realizados, alguns até funerais de Estado, que o exército marroquino sofreu baixas consideráveis em todas as patentes militares", diz Baali Hamudi vagamente. O conflito sem fim na província outrora espanhola, o último território não-colonizado do continente africano, é uma guerra assimétrica, também em termos dos recursos disponíveis para cada lado. A unidade comandada pelo septuagenário é composta por jovens cujo estatuto laboral é mais próximo do de voluntários do que de uma instituição militar convencional. Recebem uma mesada trimestral que mal cobre as suas necessidades.

Também não existem quaisquer semelhanças em armamentos para equilibrar a batalha. Marrocos, que obteve o reconhecimento americano da sua soberania sobre o Sahara [o famoso tweet de Presidente Trump a poucos dias de abandonar o cargo] em troca do restabelecimento dos laços com Israel, recebeu de Telavive e Abu Dhabi, a "Esparta" liderada pelos Emirados Árabes Unidos, arsenais substanciais de última geração. Os saharauis não fazem segredo do facto de continuarem a utilizar o barril de pólvora de Kalashnikovs, lançadores de foguetes multiplos e metralhadoras que acumularam em tempos mais propícios, sendo a então União Soviética o seu principal fornecedor.

"Os marroquinos podem ter muitos recursos, mas não têm coração nem moral", responde Salem. "Se tivéssemos tido em conta apenas o arsenal, eles já teriam ganho, mas não contavam que pudéssemos resistir 46 anos no meio desta vida dura. Marrocos nunca ganhará, por mais que os seus aliados sejam israelitas, americanos ou franceses", murmura o oficial. "Há demasiadas guerras no Médio Oriente e não recebem tanto como dizem", argumenta Baali Hamudi.

 

Um conflito assimétrico

Do lado saharaui, a Argélia, que abriga no seu território dezenas de milhares de pessoas deslocadas e que em agosto passado rompeu relações diplomáticas com Marrocos, entre outras razões, devido à decisão de Mohamed VI de enterrar qualquer possibilidade de realização de um referendo, permanece leal ao povo saharaui.



A jóia da coroa do novo conflito são os drones. Segundo a Polisario, o seu inimigo tem drones não tripulados à sua disposição para vigilância e ataque subsequente. "Forçou-nos a ser extremamente cautelosos", diz Baali Hamudi, que já foi ferido sete vezes na sua longa folha de serviço. Fontes marroquinas cifram em 724 o número total de voos de reconhecimento da Polisario utilizando drones. "Isto não é verdade. Não temos um único drone neste setor", balbucia ele.

No regresso ao acampamento, após uma operação que durou pouco mais de meia hora, os combatentes olham para o céu enquanto apontam para um ponto cintilante entre as estrelas que atribuem a um drone. A caravana ziguezagueia e gira, numa tentativa de despistar o suposto dispositivo que analisa a trajetória em voo de pássaro.


«Estamos prontos para entrar noutra fase da luta se nos for ordenado que o façamos e fazer o que sempre fizemos: atacar o muro, fazer raids e destruir material".

BAALI HAMUDI, COMANDANTE DA FRENTE POLISARIO


Estamos prontos para entrar noutra fase da luta se nos for ordenado fazê-lo e fazer o que sempre fizemos: invadir o muro, fazer raids e destruir equipamento", gaba-se Baali Hamudi. "Espero ver a vitória, mas só Deus sabe", diz o seu camarada Salem da frente mais ativa da guerra, onde se concentra um dos principais batalhões marroquinos. "Conhecendo o inimigo, prefiro que a solução do conflito seja militar, mas sabemos que qualquer solução política será forçada pela do campo de batalha", diz o comandante.

A sua é a estratégia de atingir e golpear o muro marroquino dia após dia. "É a dinâmica diária aqui", insiste ele. "Queremos que eles comprem material e o deitem fora. A nossa é, de momento, uma guerra de guerrilha", acrescenta ele. Passou uma hora desde o ataque e o comandante ainda está à procura de confirmação da extensão do ataque. "As bases sofreram danos materiais, mas precisaremos de alguns dias para conhecer o resultado exato do ataque", adverte este oficial militar da velha guarda que cancelou qualquer ideia de reforma iminente. "Eu era um dos líderes da eestrutura militar que estava zangado com o cessar-fogo de 1991. É provável que isto também acabe no caminho político. Eu cumpri-a na altura e fá-lo-ia agora".

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Dois civis saharauis assassinados em Mahbes pela aviação marroquina

 

Sidi Ougal


ECS - 17-05-2021 - O Secretário-Geral do Ministério da Segurança e Documentação saharaui, Sidi Ougal, afirmou esta segunda-feira que as forças marroquinas cometeram um massacre contra civis saharauis num bombardeamento seletivo na zona de Wadi Tchuna, localizada na região de Mahbes, norte do Sahara Ocidental, matando os membros da tripulação que se encontravam a bordo de dois veículos privados e não militares.

O alto funcionário saharaui explicou que as forças de ocupação marroquinas bombardearam dois veículos "Nissan" cujos passageiros eram civis saharauis, causando a sua morte por queimaduras graves, confirmando por outro lado que o grave incidente está relacionado com baixas civis, e não militares, tal como promovido pelos meios de comunicação social do regime marroquino.

A imprensa marroquina tinha falsamente divulgado testemunhos sobre a destruição pela artilharia marroquina de dois veículos Toyota 4x4 pertencentes ao Exército de Libertação Saharaui.

Sidi Ougal negou veementemente as acusações dos media marroquinos sobre a destruição de duas viaturas pertencentes ao exército saharaui, acrescentando que se trata de duas viaturas Nissan, e não Toyota como a imprensa marroquina tinha indicado, salientando que não é a primeira vez que o exército de ocupação marroquino ataca civis saharauis.

O Secretário-Geral do Ministério da Segurança e Documentação também aproveitou a oportunidade para assinalar e referir a contradição de Marrocos, "que nega a existência da guerra com os seus meios de comunicação social ao mesmo tempo que fala de vitórias militares e de uma troca de tiros entre o exército saharaui e o exército marroquino".

domingo, 15 de novembro de 2020

Os últimos acontecimentos na frente militar e nos territórios ocupados do Sahara Ocidental

 


Segundo diversas fontes militares e da resistência saharaui no interior dos territórios ocupados por Marrocos, as últimas horas foram marcadas por violentos combates em diversos pontos do muro de defesa erigido pelas forças marroquinas e que se estende ao longo de mais de 2.500 km. Também nas cidades sob ocupação marroquina os confrontos recrudesceram entre civis saharauis e forças policiais e corpos repressivos marroquinos.

Eis o que de mais relevante aconteceu:

 

— A RASD oficializa o fim do cessar-fogo e o reínicio da luta armada

 

— O comunicado militar N.º 02 do Exército de Libertação Saharaui dá conta que nas últimas horas foram bombardeadas as bases inimigas em Echergan, Al-Bukari, Al-Mahbas (no cento do território) Mahbes (norte) e El Guerguerat(sul) . O comunicado dá conta de vários mortos e feridos entre as forças marroquinas, estes evacuados para as cidades ocupadas de Dakhla y Smara.

Os combates tem sido produzido por intenso fogo de barragem lançados por carros lança-foguetes, artilharia pesada e mísseis.

 

— Em El Aaiún e Smara, pelo menos, ocorrem pela segunda noite consecutiva manifestações e confrontos entras manifestaciones saharauis e forças dos corpos repressivos marroquinos Há vários feridos, detidos e desaparecidos.

 

— Ao longo do dia são inúmeros os jovens saharauis que se oferecem para se alistar nas forças armadas, tanto nos acampamentos de refugidos como na diáspora saharaui (Espanha, França...).


 


— A ONU e o Secretário-Geral da ONU pede à RASD que acalme as tensões.

 

— A Argélia desloca efetivos militares para a sua fronteira sudoeste que divide o seu território com o do Sahara Ocidental e Marrocos.

 

— A RASD dá 12 horas à MINURSO para que abandone o deserto do Sahara devido ao eclodir dos combates resultantes da sua demonstrada incapacidade em resolver o conflito e impor as suas próprias resoluções.

 

— Muitas organizações internacionais e países de todos os continentes manifestam tanto a condenação pelo ataque marroquino aos civis saharauis em Guerguerat, o que constituiu o despoletar dos confrontos bélicos, como a sua apreensão pelo evoluir dos acontecimentos.

 

— Em Espanha, em inúmeras cidades, têm lugar manifestações de apoio ao povo saharaui. Recorde-se que ontem, 14 de Novembro, cumpriram-se 45 anos sobre os Acordos Tripartidos de Madrid, com base nos quais a Espanha abandonou a sua colónia e a entregou à ocupação de Marrocos e da Mauritânia. Um acordo que não tem equivalente na negra história colonial e que contou com o apoio e a conivência do então rei Juan Carlos. Estes acordos ilegais não têm qualquer sustentação jurídica à luz do Direito Internacional mas constituiram o alibi para a ocupação marroquina.


 

— Noticias verdadeiras e ‘fake-news’. É difícil comprovar algumas das acções levadas a cabo pelas duas partes do conflito, mas são conhecidas as técnicas de desinformação e propaganda utilizadas por Marrocos. A mais importante ‘fake-new’ das últimas horas é a pretensa “normalidade” que reina na desimpedida brecha de Guerguerat, no extremo sul do SO, a escassos quilómetros do posto fronteiriço mauritano propalada pela máquina de intoxicação de Rabat . Qualquer leigo se interrogaria como seria isso possível estando a área sujeita a intensa barragem de artilharia das forças saharauis. A agência EFE quis lá mandar um jornalista e não teve autorização das autoridades marroquinas e esta manhã, de domingo, o correspondente do canal de televisião árabe Aljazzera, Baba Ould Horma, desmentia as falsas informações difundidas por Marrocos em reportagem realizada no posto fronteiriço mauritano onde não se registava qualquer passagem de camiões de mercadorias. Recorde-se que a brecha ilegal de Guerguerat era o ponto de escoamento privilegiado para a saída de milhares de toneladas de recursos naturais explorados ilegalmente por Marrocos e seus sócios ocidentais (espanhóis e franceses na sua maioria) na antiga colónia espanhola.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Ministro saharaui da Segurança e dos Serviços de Inteligência adverte Marrocos que a Frente Polisario responderá com "força esmagadora" face a qualquer ataque.

 


O ministro da Segurança e Documentação (serviços de inteligencia) voltou a erguer o tom bélico contra o regime de Mohamed VI e lembra-lhe que os objectivos dos manifestantes saharauis em El Guerguerat são intocáveis.

Chahid Alhafed, 10 novembro de 2020. - Lehbib Abdelhay /ECS - Abdalahe Lehbib Balal, ministro da Segurança e Documentação da República Saharaui (Serviços de Inteligência) advertiu hoje Marrocos que a Frente Polisario responderá com "uma grande e esmagadora força" a qualquer ataque contra os manifestantes saharauis em El Guerguerat.

Em declarações à APS, o dirigente saharaui voltou a levantar o tom em relação ao Makhzen (poder do Palácio de Marrocos). "A decisão ignorante de Marrocos de planear um ataque à brecha ilegal em El Guerguerat só mostra que não entende a realidade", disse Lehbib, acrescentando "Qualquer ataque feito por Marrocos contra qualquer cidadão saharaui na brecha ilegal será respondido com uma força grande e avassaladora.

Abdalahe Lehbib Balal lembrou que a Frente Polisario e a RASD não permitirão a abertura dessa brecha (através da qual Marrocos exporta para a Mauritânia e para África os recursos naturais expoliados no território que ocupa do Sahara Ocidental) e que a sua persistência representa uma violação do cessar-fogo em vigor desde 1991.
A Frente Polisario colocou este domingo as suas tropas em alerta devido à tensão na passagem da fronteira de Guerguerat e confirmou ontem que responderá "com firmeza" a qualquer agressão marroquina na zona.
A mobilização surgiu após alerta para a presença de viaturas militares marroquinas "a apenas três quilómetros" das dezenas de saharauis que mantêm um acampamento na zona desde 21 de outubro, bloqueando a passagem de viaturas que entram ou saem da Mauritânia.
Além das viaturas militares marroquinas, o governo saharaui detetou e denunciou também a incursão de soldados camuflados.

O governo saharaui lamenta os "anos de silêncio" da comunidade internacional face à "ocupação e pilhagem" de Marrocos.
O governo saharaui lamenta os "anos de silêncio" da comunidade internacional ante a "ocupação e a expoliação" por parte de Marrocos - afirmou o ministro.
 


Risco de um "massacre"

Após concentração de forças militares ao longo do Muro da Vergonha, na área adjacente à brecha ilegal em El Gueguerat, em clara violação das cláusulas do Acordo Militar nº 1 (entre as partes, Marrocos e a Frente Polisario), as forças de ocupação marroquinas empreenderam, desde a noite de domingo, o destacamento em larga escala do Exército, da Gendarmaria e de outras equipas de segurança para a zona ”, afirma um comunicado do governo saharaui.

O comunicado afirma, citando "informações fiáveis ​​de fontes presentes no local", que os militares marroquinos se disfarçaram com roupas civis, "aos olhos da MINURSO [Missão da ONU para o referendo no Sahara Ocidental]", para atacar civis saharauis, que bloqueiam a área desde 21 de outubro.

Qualquer incursão marroquina nesta zona libertada da RASD, conhecida como zona de separação, será considerada uma "agressão flagrante a que o lado saharaui responderá com firmeza, em legítima defesa da sua soberania nacional", afirma. “Também significará o fim do cessar-fogo e abrirá as portas para a eclosão de uma nova guerra total na região”, acrescenta.

O governo saharaui em comunicado defende o direito de se manifestar pelos "direitos inalienáveis ​​do seu povo à autodeterminação e independência" e responsabiliza a ONU, e especialmente o Conselho de Segurança, por "salvaguardar a integridade física dos civis saharauis presentes", em risco de "agressão militar iminente perpetrada por soldados marroquinos disfarçados de civis", que pode levar a um "massacre hediondo".
 
 
Mohamed VI reivindica a soberania "plena e integral" de Marrocos sobre o Sahara e nega o referendo
 
No sábado passado, coincidindo com o 45º aniversário da Marcha Verde - quando soldados e civis marroquinos marcharam sobre o Sahara, então ocupado pelo Estado espanhol -, o rei de Marrocos, Mohamed VI, fez um discurso marcado pela situação atual da Covid-19. Abordou também a questão do Sahara Ocidental ocupado. O monarca reivindicou a sua antiga proposta, o plano autonomista, garantindo que o Marrocos permaneceria para sempre "no seu Sahara".

O rei defendeu, de facto, pela primeira vez, uma solução aceitável por ambas as partes, a Frente Polisario e Marrocos. No entanto, sublinhou que não há solução possível fora da soberania "plena e total" de Marrocos, ou da iniciativa de autonomia apresentada em 2007, rejeitando totalmente o referendo de autodeterminação prometido e proposto pela ONU em 1991 (e para o qual foi constituída a Missão MINURSO).

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

“Os saharauis vão continuar a sua luta até atingirem o seu objectivo, a independência total do Sahara Ocidental”, afirma Brahim Gali

 


Tifariti (Zonas Libertadas do Sahara Ocidental), 27 Agosto de 2020. - (ECSAHARAUI) - O Presidente da República e Secretário-Geral da Frente Polisario, Brahim Gali, afirmou ontem em Aguenit que o povo saharaui continuará a sua luta até alcançar o seu objetivo, que é a independência total do Sahara Ocidental.

Gali, em discurso pronunciado, reafirmou “que apesar das políticas de obstrução e intransigência e apesar das operações de guerra mediática e de propaganda do ocupante marroquino com o único objetivo de quebrar a resistência e a Unidade Nacional Saharaui, a luta de libertação segue em frente e o povo saharaui, com todas as suas componentes, está de pé e determinado a cumprir os seus objetivos e a concretizar a soberania do Estado saharaui sobre todo o seu território nacional.

Gali, junto com uma delegação ministerial, visita os territórios libertados do Sahara Ocidental no âmbito da Universidade de Verão, do programa alternativo Férias em Paz e do lançamento do projeto de construção e repovoamento dos territórios saharauis.

Brahim Gali esteve presente na quinta-feira passada na inauguração da Universidade de Verão e do programa alternativo Férias em Paz 2020,, na região libertada de Tifariti, na presença de personalidades nacionais e de grande número de residentes da região.

O presidente saharaui anunciou então aquela que será uma das declarações mais históricas da sua vida política: a reconstrução e repovoamento permanentes dos territórios libertados do Sahara Ocidental. Uma decisão que pode significar uma mudança de rumo no conflito no território ocupado desde 1975.

Esta decisão enquadra-se nas orientações emanadas do XV Congresso da Frente Polisario em relação à construção dos territórios libertados do Sahara Ocidental.

 

O anúncio perturba Marrocos e envia um sinal à ONU

A Frente Polisario decide reconstruir e repovoar os territórios saharauis que administra e gere desde 1976, ano da proclamação da República Árabe Saharaui Democrática (RASD), hoje reconhecida por mais de 80 países e é membro fundador da UA.

Recorde-se que em 2018, na resolução para prorrogar o mandato da MINURSO por seis meses, o Conselho de Segurança condenou categoricamente a decisão da Frente Polisario de estabelecer povoamentos nos territórios que controla, considerados pelo Marrocos como uma ‘Zona Tampão’, e que a Frente Polisario não deveria exercer nenhuma atividade nesses territórios.

Mas nas resoluções subsequentes este parágrafo da resolução foi retirado. Recorde-se que, desde 2017, Marrocos vem construindo e reformando o muro militar conhecido como muro marroquino da vergonha no Sahara Ocidental sem que o Conselho de Segurança o sancione, apesar da forte condenação do secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.

A decisão anunciada pelo Presidente da República mobilizou quinze organizações estrangeiras, que manifestaram o seu interesse em participar e acompanhar o povo saharaui na construção e repovoamento dos seus territórios libertados. A decisão de Gali é vista por alguns como um 'chip move' contra o atual impasse no conflito desde a renúncia do ex-enviado da ONU para o Sahara Ocidental, Horst Kohler

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O exército saharaui combate agora o narcotráfico: aumentam as apreensões no deserto de drogas oriundas de Marrocos



A Polisario vê uma "cumplicidade" entre altos comandantes militares marroquinos e narcotraficantes para permitir que a mercadoria atravesse o maior muro defensivo do mundo que divide o Sahara Ocidental em dois, e que mais tarde vai financiar grupos terroristas jihadistas no Sahel.

SANTIAGO F. REVIEJO @sreviejo

O exército da Frente Polisario que lutou contra o Marrocos durante 16 anos tem agora um novo inimigo: os traficantes de drogas que atravessam o seu deserto carregando toneladas de drogas - principalmente haxixe - em direção a áreas dos países do Sahel dominadas por organizações terroristas jihadistas. O governo saharaui garante que esta mercadoria provém do outro lado do muro defensivo de 2.700 quilómetros que o estado marroquino construiu durante a guerra para defender o seu território, dividindo o Sahara Ocidental em dois após o fim das confrontações em 1991.

As últimas intervenções ocorreram esta semana. As forças armadas saharauis apreenderam 3.775 quilos de haxixe na segunda-feira em Agüenit, ao sul dos territórios libertados pela Polisario na guerra contra Marrocos. Na operação, quatro pessoas foram presas, três delas de nacionalidade estrangeira - não saharaui - sem especificar, e capturadas espingardas de assalto, munições abundantes e veículos todo-o-terreno de alta potência. Um dia depois, outros 775 quilos foram confiscados na área vizinha de Dugej. Membros da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO) estiveram presentes como testemunhas na operação de queima da droga capturada.

Com essas duas intervenções, o exército da Polisario já confiscou no primeiro semestre de 2020 um total de 4.550 quilos de drogas, quase o dobro do que foi apreendido em todo o ano passado, segundo fontes do governo saharaui. E desde 2015, garantem que mais de trinta toneladas foram capturadas em operações realizadas na longa rota do deserto que, atravessando o território saharaui, vai do muro defensivo vigiado pelas forças armadas marroquinas às regiões do Sahel na Mauritânia, Mali e Níger.

Agora, o que pergunta o governo da República Árabe Saharaui Democrática é como os traficantes de drogas conseguem atravessar, sem serem detectados, o muro vigiado por entre 80.000 e 100.000 soldados marroquinos equipados com radares sofisticados capazes de detectar a passagem de uma simples formiga, e depois atravessam, sem pular no ar, um campo de sete milhões de minas antipessoal e antitanque que protege todo o perímetro dessa barreira defensiva. A resposta, segundo o porta-voz de comunicação d Polisario na Espanha, Jalil Mohamed, é muito simples: "O conluio entre organizações de narcotráfico e o alto comando militar marroquino" "é o que torna possível essa proeza.

O exército da Polisario conseguiu bloquear as rotas de entrada no seu território através da parte norte do muro, e isso levou, segundo os seus oficiais, ao facto dos gangues de narcotraficantes desviarem a introdução de carregamentos no território saharaui para a parte sul do muro defensivo, local onde ocorreram as últimas apreensões.

E essa via do tráfico de drogas termina, na opinião do governo saharaui, no financiamento das organizações terroristas jihadistas que dominam várias áreas da vasta região subsaariana do Sahara. "Esse tráfego serve para desestabilizar a região. Marrocos está usando esse tráfego para desestabilizar o Sahara e outros países da região e depois aparece como salvador", diz Jalil Mohamed, que lamenta que em cimeiras como a do Sahel 5, a que compareceram esta semana na Mauritânia os presidentes dos governos espanhol e francês, não se discuta a origem do financiamento dos terroristas.



ONU teme por seus capacetes azuis na região

O Secretário-Geral da ONU já alertou no seu último relatório sobre a situação no Sahara Ocidental, apresentado ao Conselho de Segurança das Nações Unidas em outubro passado, sobre o perigo representado por esses gangues que atravessam o território saharaui. Especificamente, depois de observar que "aumentaram os relatos de contrabando e outras atividades ilegais em ambos os lados da barreira" - o muro defensivo de Marrocos - assinaladas pela Frente Polisario e pelo exército marroquino, ele destaca: "Apesar de nossa plena confiança no compromisso das partes em proteger a Minurso, esses grupos armados representam uma ameaça crescente e imprevisível para o pessoal da Minurso", a missão internacional responsável por há quase 30 anos garantir a realização de um referendo de autodeterminação que ainda não foi convocado.

Noutro ponto do seu relatório, o Secretário-Geral da ONU afirma que "a ameaça relacionada a grupos terroristas e atividades criminosas na região continua sendo motivo de grande preocupação devido à sua imprevisibilidade e nível de risco desconhecido, especialmente para bases de operações localizadas em áreas remotas a leste do muro (a parte conquistada pela Polisario na guerra), as patrulhas desarmadas que cobrem grandes distâncias em todo o território e o reabastecimento de colunas".

O governo saharaui informou repetidamente o Conselho de Segurança das Nações Unidas da sua preocupação com a atividade dessas quadrilhas de traficantes no seu território, a última quarta-feira passada, depois das apreensões de mais de quatro toneladas de haxixe nas duas operações acima mencionadas. Nos escritos do seu representante na ONU, a Polisario responsabiliza o Reino de Marrocos por essas operações, que atribui ao seu estatuto de maior produtor mundial de resina de cannabis, conforme é referido nos relatórios do Escritório de Nações Unidas contra as Drogas e o Crime.

Em outubro de 2011, dois cooperantes espanhóis e uma italiana foram sequestrados nos campos de refugiados saharauis em Tindouf, na Argélia, por um grupo terrorista jihadista do Sahel. Após nove meses de cativeiro, os reféns foram libertados no norte do Mali. Desde então, a Polisario aumentou as medidas de segurança nos campos para proteger, acima de tudo, os estrangeiros de organizações humanitárias que trabalham com a população local.

"Eles estão transformando a região num oeste selvagem e o que nós queremos é um Magrebe estável e próspero", diz o porta-voz da Polisario em Espanha.


sábado, 28 de março de 2020

MAIS DE 400 ORGANIZAÇÕES DE TODO O MUNDO ENVIAM CARTA A MEMBROS DA ONU PARA ADVERTIR DAS CONSEQUÊNCIAS DE COVID – 19 SOBRE A POPULAÇÃO SAHARAUI INTEIRA




405 Organizações Não Governamentais (entre elas a Associação de Amizade Portugal-Sahara Ocidental-AAPSO e outras organizações portuguesas), associações, movimentos sociais e civis, partidos, sindicatos, políticos, parlamentares, advogados, médicos, cientistas, professores, pesquisadores, jornalistas, defensores dos direitos humanos e outros de todo o mundo (América Latina, América do Norte, Europa, África, Ásia e Oceania) assinaram a carta referente ao povo saharaui durante a pandemia de Covid 19 que foi enviada a Sua.Exa. Filippo Grandi, Alto Comissário da ONU para Refugiados; Sua Exa. Michelle Bachelet, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e todos os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas.


V.Exa. Filippo Grandi, Alto Comissário da ONU para Refugiados
V.Exa. Michelle Bachelet, Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos
Membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas

De acordo com o artigo 73 da Carta da ONU e a Resolução 1514 da ONU

Artigo 73
Os membros das Nações Unidas que têm ou assumem responsabilidades pela administração de territórios cujos povos ainda não alcançaram uma medida completa de autogoverno reconhecem o princípio de que os interesses dos habitantes desses territórios são fundamentais e aceitam como uma confiança sagrada a obrigação de promover ao máximo, dentro do sistema de paz e segurança internacional estabelecido pela presente Carta, o bem-estar dos habitantes desses territórios …

Alertamos para a situação do povo saharaui nos territórios ocupados e nos campos de refugiados, bem para a situação dos presos políticos.

Territórios ocupados
A população saharaui vive num apartheid social, económico e político. Esta situação é agora agravada devido à pandemia de Covid-19. A população saharaui é mais vulnerável e tem menos acesso aos cuidados de saúde. Relatórios recentes dos territórios ocupados alertam para o aumento dos movimentos das forças militares e policiais e a entrada de um contingente maior na região. Ao mesmo tempo, os colonos marroquinos tentam sair do território às centenas. Nenhum teste do Covid-19 foi realizado.

É necessário que a MINURSO receba um mandato especial para vigiar o acesso a cuidados de saúde adequados dessa população, bem como a proteção da população saharaui neste contexto.

Presos políticos
Os presos políticos saharauis nas prisões marroquinas, a maioria localizados em Marrocos e não no Sahara Ocidental, são vítimas de maus-tratos, tortura e negligência médica intencional. No contexto desta pandemia, eles são alvos fáceis para o regime marroquino e é urgente intervir para a sua proteção.

É urgente que os mecanismos de Direitos Humanos da ONU analisem a sua situação e alertem as autoridades marroquinas para que respeitem e protejam a sua integridade física.

Campos de refugiados em Tindouf, Argélia
A população saharaui nestes campos é especialmente vulnerável devido à falta preexistente de nutrientes necessários e doenças crônicas associadas aos 45 anos de vida nos campos de refugiados. É necessário garantir que haja estoques adequados de alimentos nos campos e que o fornecimento não seja interrompido.

Embora as autoridades saharauis, em coordenação com o Crescente Vermelho e a OMS, tenham implementado todas as precauções necessárias, nomeadamente quarentena, medidas de higiene e interdição de entrada de estrangeiros, é urgente que a população tenha acesso ao teste da covid-19, equipamentos médicos, incluindo camas, máscaras n95, ventiladores e ao reforço do estoque de medicamentos que já de si são sempre baixos e insuficientes.