quinta-feira, 31 de julho de 2014

Efemérides: Conselho de Segurança apoia o segundo plano de Baker para o Sahara Ocidental e Marrocos recusa-o

 
James Baker


Em 1997, Kofi Annan nomeia James Baker seu Enviado Pessoal para o Sahara Ocidental. A 31 de julho del 2003, o Conselho de Segurança vota por unanimidade o seu segundo plano de paz para a livre determinação do povo do Sahara Ocidental “como solução política baseada no acordo das duas partes”.

O segundo plano de James Baker previa a criação de uma entidade autónoma no Sahara Ocidental dependente de Marrocos com competências educativas, culturais e sobre os recursos pesqueiros, mas não em matéria de assuntos exteriores, defesa, interior, segurança, finanças, moeda, fronteiras e comunicações.

No plano figuram dois processos eleitorais: o primeiro para nomear a Autoridade do Sahara Ocidental, que seria o governo 'autonómico' que administraria juntamente com Marrocos o território saharaui e uma votação - ao fim de cinco anos a partir da assinatura do plano -, para decidir se se queria prosseguir com esse sistema de governo ou optar pela autodeterminação.

Marrocos aceitou o princípio imaginando que a Frente Polisario recusaria o novo plano, mas ao ver que os dirigentes saharauis aceitaram a proposta de Baker, Rabat nunca mais dele quis ouvir falar.

Uns meses mais tarde, em junho de 2004, o diplomata norte-americano atirou a toalha ao chão apresentando a sua demissão.



Fonte: Diaspora Saharaui

Frente POLISARIO condena a "vontade" do rei de Marrocos em continuar a afrontar a legalidade internacional




O Governo da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) e a Frente POLISARIO expressaram esta quarta-feira a sua condenação à "vontade" do rei de Marrocos em continuar com a ocupação ilegal do Sahara Ocidental e a violação da legalidade internacional, manifestada no seu discurso proferido por ocasião da festa da sua chegada ao trono.
 
"O rei de Marrocos repetiu expressões de intransigência e de política de fuga para a frente em relação à questão do Sahara Ocidental, tendo há muito nos habituado a tentativas absurdas de ignorar os compromissos assinados por seu pai, Hassan II, com a parte saharaui sob os auspícios das Nações Unidas e da União Africana, em 1991 ", afirma um comunicado do Ministério da Informação.

A parte saharaui – diz o comunicado - lamenta a "incapacidade" do rei e do governo marroquinos para colaborar de forma "positiva e responsável" com a ONU e a UA "para conseguir uma paz justa e definitiva entre o Reino de Marrocos e a República Saharaui na base da aplicação do plano de resolução de 1991, que foi firmado por ambas partes e aprovado por unanimidade pelo Conselho de Segurança e a Assembleia Geral da ONU e a Organização da Unidade Africana".
 
Marrocos – afirma o comunicado – é a principal fonte de instabilidade no norte de África mediante a sua ocupação de partes da RASD, a violação das fronteiras, como produtor e fonte de aprovisionamento de drogas para os países da região e na zona do Sahel através das redes de crime organizado.


(SPS)

terça-feira, 29 de julho de 2014

Aziza Brahim: a música é uma linguagem universal




Aziza Brahim tornou-se este ano uma autêntica estrela do género da world music. O seu álbum "Soutak" recebeu críticas excelentes e foi muito bem acolhido pelo público. Graças à editora discográfica Glitterbeat, a publicação croata Pot teve a oportunidade de fazer uma entrevista com a cantora saharaui.

Lendo a sua biografia, é interessante ver que trocou a educação em Cuba pelo estudo da música, algo que ali não podia fazer. De onde vem esse seu amor pela música?

Na realidade, não troquei a educação em Cuba porque passei ali nove anos estudando o ensino secundário e pré-universitário. Nove anos em que desfrutei de um sistema educativo de primeira qualidade, coisa que não teria sido possível se tivesse permanecido nos acampamentos. Mas, depois de tanto tempo, tinha muita vontade de ver a minha família e os cursos universitários que podia estudar, Direito ou Medicina, não me motivavam para prolongar a minha estada na ilha. Se tivesse podido estudar Música, não teria hesitado, mas dado que não tinha essa possibilidade, decidi regressar a minha casa. O amor pela música acompanha-me desde que tenho o uso da razão.

Foi difícil recusar a possibilidade de ir para Cuba, sobretudo tendo em conta que naquele tempo vivia num campo de refugiados?

Com nove anos, eu queria ir para Cuba com todas as minhas forças, sobretudo para ir ver a minha irmã, que tinha ido estudar um ano antes. Na altura eu não tinha muita consciência de viver num campo de refugiados, ou o que isso significava exatamente. Para mim, era a minha casa, o meu país, sempre tinha sido assim e eu não conhecia outra coisa.

Ainda que esta entrevista esteja focada na música, é impossível evitar o lado político. A guerra no Sahara Ocidental durou mais de 15 anos. Além disso, muitos anos depois, uma parte do povo saharaui viveu e continua a viver em campos de refugiados. De que forma esta difícil situação se reflete na cultura de seu povo?

Em quase todos os aspetos, a situação do meu povo determina a cultura e a produção artística. Possivelmente só se salvam os aspetos mais tradicionais da nossa cultura porque permanecem conservados na memória dos nossos mais velhos. Mas as manifestações artísticas que agora se produzem caracterizam-se por um forte sentido de resistência, de reivindicação e de luta, pois elas são marcadas pela realidade histórica quotidiana que sofrem os saharauis.

O filme "Wilaya" relata os problemas do povo Saharaui. Escreveu a banda sonora da película e também participou como atriz. Infelizmente, a película nunca foi mostrada na Croácia. Pode falar-nos um pouco mais sobre ela? De que forma a película foi bem recebida nos festivais? Conseguiu sensibilizar muita gente sobre este tema?

Sim, a película “Wilaya” conta uma história de ficção de duas irmãs saharauis, muito diferentes entre elas, que se reencontram após uma larga temporada. É uma história muito humana e muito realista que nos faz refletir sobre a nossa situação como seres humanos e como povo dividido entre os acampamentos, a diáspora e os territórios ocupados. Foi muito bem recebida pelo público e pela crítica. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais. Espero que a possam ver dentro em breve na Croácia.

Outra artista Saharaui conhecida é Mariem Hassan e durante um período as duas atuaram com o grupo Leyoad. Cantaram juntas alguma vez? Pode recomendar alguns outros músicos saharauis aos nossos leitores?

Trabalhámos juntas no Leyoad durante um tempo, mas depois não voltámos a colaborar. Outros músicos saharauis que recomendaria aos vossos leitores são o grupo Tiris, a cantora Shueta e o guitarrista Nayim Alal.

Quando se fala da ‘música do deserto', Tinariwen, Tamikrest, Bombino são alguns dos artistas Tuaregues conhecidos no mundo. Quais as semelhanças e as diferenças entre a música dos Tuaregues e a dos Saharauis?

É uma pergunta difícil, porque para lá das generalizações estão as peculiaridades de cada artista. Acho que as semelhanças se centram nas raízes africanas de ambas e as diferenças em algumas ‘nuances’ rítmicas. Quando ouço a música tuaregue, o som das guitarras e o ritmo que induz a uma espécie de transe aproximam-me da música do meu país. Mas a música tradicional saharaui rege-se pela variações do Haul que determina ritmos específicos no Tabal. Outra diferença importante é a linguagem dos textos – enquanto eles cantam em Tamasheq, nós fazemo-lo em Hassania, o nosso dialeto da língua árabe.



O seu disco "Soutak" foi gravado com músicos do Mali e de Espanha, e nele, além da música tradicional Saharaui/africana há também muitas influências de flamenco. Donde surge a ideia por esta mistura?

Quando faço uma canção, não parto de um propósito abstrato, mas de uma melodia. As melodias que imagino estão influenciadas pela música que escuto. Gosto muito das música de raiz e, portanto, não é surpreendente que o resultado final de  “Soutak” agrupe influências de diferentes músicas.

A canção "Julud" foi eleita como um dos êxitos do álbum. Pessoalmente creio que é uma das canções mais belas que ouvi este ano, mas poucos sabem que a canção é dedicada à sua mãe. Pode dizer-nos mais sobre as origens desta canção?

Muito obrigado. É verdade que é uma canção dedicada à minha mãe. Quis expressar-lhe o que ela significa na minha vida, é um agradecimento por tudo o que ela fez por mim e pelos meus irmãos. É uma homenagem também às mulheres saharauis. Um reconhecimento à luta incansável ​​e à sua capacidade de superação frente a todos os obstáculos de uma vida marcada pelo êxodo e a dificuldade de construir um país no exílio, assim como a sua contribuição para a manutenção e conservação da cultura saharaui.



O resto do álbum, em grande parte, também trata os problemas com que se confronta a sua nação. A situação no Sahara Ocidental está melhorando?

Lamentavelmente, a situação não melhora, antes se agrava porque estamos submetidos a um esquecimento absoluto. A cada dia que passa, os saharauis continuam condenados a subsistir nos campos de refugiados ou sob os rigores de uma ocupação ilegal e totalmente repressiva. Penso que melhorará no dia em que forem respeitadas cada uma das resoluções das Nações Unidas para o processo de paz na região e em que nós Saharauis possamos decidir o nosso destino num referendo sobre a autodeterminação.

O seu novo álbum foi produzido por Chris Eckman e gravado ao vivo. Como foi a experiencia de trabalhar com Chris Eckman? O que trouxe ele ao álbum como produtor?

Trabalhar com um produtor da estatura de Chris Eckman é uma sorte e supõe uma experiência fantástica de crescimento pessoal e profissional. Ele foi muito generoso em se comunicar comigo e estivemos perfeitamente de acordo sobre como abordar o disco. Ele deu ao álbum a sua grande sabedoria como produtor, sobretudo através de um processo de trabalho particularmente eficiente, tanto na produção como na mistura.

Imediatamente após a sua aparição, "Soutak" recebeu críticas excelentes, e permaneceu no primeiro lugar do ranking de êxitos da WMCE três meses seguidos. Esperava ter tanto êxito?

Sinceramente, foi uma surpresa e uma grande alegria. Emocionei-me com cada uma das críticas que li sobre o meu álbum. Não esperava que Soutak estivesse tantos meses no primeiro lugar da WMCE e agradeço muito a todos ouvintes que apoiaram o meu trabalho, assim como aos locutores que nele votaram para que permanecesse três meses seguidos nessa posição da lista.

Mudou alguma coisa na sua vida depois do êxito deste álbum?

Sinto-me mais reconhecida como artista, mais apreciada e mais satisfeita, claro está. O êxito de Soutak dá-me ânimo para continuar a trabalhar em próximos projetos.

A Aziza faz muitas atuações ao vivo. Há alguma possibilidade de vir a dar um concerto em algum local da ex-Jugoslávia?

Seria genial atuar aí, assim os promotores e o público estejam interessados.

O género de world music está a ganhar cada vez mais popularidade no mundo e os músicos que interpretam música baseada na tradição do seu povo podem hoje em dia encontrar más facilmente vias para chegar ao público nos cantos mais remotos do globo mesmo que não entendam a sua língua. Como comenta?

O velho lema de “Pensa globalmente, atua localmente” tem a sua versão musical. A música autêntica, de raiz, chega cada vez a mais gente em torno do planeta. Isto é enriquecedor tanto para os artistas como para o público porque supõe um maior grau de empatia com sensibilidades e culturas de outros povos. E isto demonstra, uma vez mais, que a música é uma linguagem universal.

Tradução para o espanhol: Andrea Rožić & Minela Fulurija

Foto: Guillem Moreno

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Marrocos, 129.º no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano




O Índice de Desenvolvimento Humano, publicado anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), órgão das Nações Unidas, coloca Marrocos no 129.º lugar entre os 187 países analisados (0,617).

Para elaborar o ranking, o PNUD utiliza três critérios principais: a longevidade, a educação e o rendimento.

Há três anos atrás, o então porta-voz do governo marroquino tentava defender o indefensável ao acusar a ONU de ter por base critérios não científicos que falsificariam os resultados…. A época, em 2011, Marrocos ocupava o 130.º lugar. Três anos depois… está em 129.º!!

A nível magrebino, é a Tunísia (0,721) que está à frente ocupando o 90.º lugar, seguindo-lhe logo depois a Argélia (0,717) em 94.º lugar. Apesar da revolução democrática e a instabilidade que isso gerou, a Tunísia subiu este ano 4 lugares no ranking IDH do PNUD.


Fonte: Bladi.net

Os infortúnios de escrever sobre Marrocos

Foto do 1.º ministro marroquino publicada no site independente demainonline: O procurador da mais alta instância judicial de Espanha rejeita a acusação de Benkirane e do Makhzen contra o jornalista espanhol Ignacio Cembrero.



Ignacio Cembrero, antigo correspondente do El País para a região do Magrebe, a quem Marrocos interpôs uma ação judicial por alegado “incitamento ao terrorismo”, conta aqui toda a história. As pressões de Marrocos que levaram ao seu afastamento da cobertura da região no El Pais e o seu posterior pedido de demissão do periódico espanhol onde trabalhava há mais de trinta anos. 

Uma história reveladora de como as autoridades do Governo marroquino e o Makhzen encaram o “perigo” da liberdade de imprensa, e as tramoias e perseguições que desencadeiam contra todos aqueles que escrevem em prol de liberdade e não se submetem aos seus ditames.


domingo, 27 de julho de 2014

Hillary Clinton : A «rainha» que presidirá talvez ao destino dos Americanos



A Casa Real de Marrocos, à distância, aparece já apoiar a putativa candidata à Casa Branca e também a personalidade que, parece, melhor servir os seus interesses…

“Ela leva observadores e os entusiastas da política ao suspense, que esperam sobre brasas a sua decisão de se afirmar como candidata às eleições presidenciais de 2016. Mas Hillary Clinton, antes de pensar no Salão Oval, tem primeiro que superar as primárias democratas, passo que parece adquirido mas que, no entanto, pode esconder surpresas que possam perturbar os paradigmas existentes”.

Todo o artigo em:


O lobby marroquino e os direitos humanos




Na sequência da proposta norte-americana de dotar a MINURSO [Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental] de um mecanismo imparcial e independente de vigilância dos direitos humanos no Sahara Ocidental [Conselho de Segurança da ONU 2013], o povo saharaui ficou deveras surpreendido naquele momento, e acolheu a iniciativa com muita alegria e esperança, porque via pela primeira vez o caminho para o fim das torturas e das detenções arbitrárias que Marrocos leva a cabo desde o início do conflito até hoje.

Face a esta proposta, Marrocos utilizou os seus aliados no Conselho de Segurança com direito a veto e, através da França apoiada por Espanha no “Grupo de Amigos do Sahara”, fez fracassar a possibilidade da ONU poder, finalmente, vigiar os direitos humanos no Sahara Ocidental e, inclusive, chegou mesmo nesse momento a suspender umas manobras militares com o exército dos Estados Unidos da América.

Tal é o nervosismo da monarquia marroquina e o medo de manifestações pacíficas que exigem o referendo sobre a autodeterminação, reconhecido pela própria ONU e o contingente das Nações Unidas que está sobre o terreno desde 1991, que tinha e ainda tem a intenção de permitir a descolonização do território saharaui. Este medo e nervosismo é o calcanhar de Aquiles da estratégia marroquina, sustentada num discurso dirigido para o exterior, que apresenta Marrocos como um país democrático e que fez reformas importantes, como a Constituição de 2011 que, alegadamente, procurava limitar os poderes do rei e dotar os órgãos eleitos da gestão e decisão na vida política. Enquanto, por outro lado, as denúncias de torturas, de julgamentos sem garantias legais e a apresentação de civis ante os tribunais militares é o pão nosso de cada dia. Tudo isso misturado num poder absoluto nas mãos do monarca marroquino que, em vez de facilitar uma transição democrática, se apega à repressão e cede taticamente antes as organizações de direitos humanos para limpar a sua imagem, mas quando estas não estão no terreno e a MINURSO se mostra inoperativa, carrega sobre os manifestantes saharauis que pedem basicamente o direito de beneficiar dos seus recursos naturais, que cesse a pilhagem das riquezas do Sahara Ocidental e se aplique o direito à autodeterminação.

Ver todo o artigo em:

Fonte. Servicio Informativo Cultural S.I.C Poemario por un Sahara Libre
Autor. Ali Salem Uld Iselmu


sábado, 26 de julho de 2014

O rei e os seus correligionários




Os marroquinos sempre sonharam com uma União do Magrebe, mas à custa da causa saharaui. Não sabem que todos os seus apelos a uma reconciliação duradoura com a Argélia que passaria, segundo eles, pela reabertura das fronteiras, será em vão enquanto esta pedra angular na construção do Grande Magrebe, que é a questão saharaui, não for resolvida. Isto é o que ressalta do último discurso da Secretária de Estado marroquina dos Negócios Estrangeiros perante o Parlamento do seu país. Pede à Argélia a "assumir o seu papel de liderança", disse ela, no conflito do Sahara, enquanto, simultaneamente, acusava aquele país vizinho de impedir o processo de reconstrução da União do Magrebe Árabe.
 
O Enviado Pessoal do SG da ONU para o Sahara Ocidental, o embaixador norte-americano Christopher Ross, ladeado pela secretária de Estado e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Marrocos
Esta enésima tirada de um responsável oficial marroquino contra a Argélia confirma, pelo menos, duas coisas importantes: primeiro, que o Palácio não pretende cessar ou moderar a sua hostil campanha contra a Argélia, mesmo após o lamentável comportamento do seu ministro das Relações Exteriores, Mourad Mezouar; e que, além disso, Rabat também admite que nada se pode fazer no Magrebe sem o seu vizinho oriental. Isso explica esse frenesim, à beira da neurose, nas manobras e provocações que adota como estratégia.
Esta declaração da secretária de Estado dos NE dá uma ideia do que será a próximo discurso do Rei, por ocasião da Festa do Trono, que terá lugar em menos de uma semana. Converteu-se numa história patética e repetitiva o discurso de Mohamed VI: cada súplica de reabertura das fronteiras terrestres em nome da irmandade magrebina e a boa vizinhança, é seguida por uma declaração de guerra.

No seu último discurso, o governante alauita acusou a Argélia, nomeando-a – o que devia provocar uma reação de Argel -, de "sabotar a iniciativa da autonomia" marroquina [para o Sahara Ocidental]  que o seu governo quer impor fora do âmbito das Nações Unidas. Para ele, a força da Frente Polisario e as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas são apenas um reflexo de manipulações e manobras tecidas pela Argélia", “visceralmente anti marroquina". Com o seu tom alarmista, ao mesmo tempo ameaçador e suplicante, esse discurso tem apenas um só objetivo: aumentar a pressão e jogo das chantagens sobre o Sahara Ocidental, que continua a ser a pedra angular da política externa do Makhzen.

Por R. Mahmoudi

Algérie Patriotique, 23/07/2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Entrevista a Mohamed Abdelaziz, Presidente da República Árabe Saharaui Democrática

  


“O nosso desejo é que o conflito se resolva através das Nações Unidas e no respeito da legalidade internacional”

Como foi a sua infância no Sahara Ocidental, colonial e ocupado?

Nasci em Smara, numa zona um pouco retirada da parte urbana. A cidade onde nasci está a 170 km do outro lado do muro. A minha infância decorreu entre Hagounia e Smara. Em finais de 1956 a minha família teve que se refugiar no sul de Marrocos, ao mesmo tempo que havia uma guerra de libertação na Argélia. Nesse tempo de guerra, muitos saharauis, entre eles o meu pai, incorporaram-se nessa luta contra o colonizador. As potências colonizadoras eram França e Espanha. O espírito reinante na época era, tanto no Egipto como na Tunísia, como na Argélia, envolverem-se na luta pela expulsão do colonizador e fomentar a ideia nacionalista da autodeterminação dos povos. Esse espírito reinante levou a que, desde a minha infância, tanto nas escolas primárias como corânicas, fosse impregnado desse espírito de luta pela autodeterminação.

Depois da brutal repressão que Espanha exerceu sobre uma manifestação pacífica [em El Aaiún, capital do Sahara Ocidental] a 17 de junho de 1970, quando já era universitário e a exemplo de muitos outros, isso levou-nos a entender que não se podiam tolerar tais comportamentos contra uma população civil que queria manifestar-se publicamente, e isso levou-me a incorporar o movimento libertador. Este acontecimento levou um grupo de jovens a criar um movimento que daria origem à criação da frente POLISARIO [Popular de Libertação do Saguia El Hamra e Rio do Ouro] 3 anos mais tarde.

Esta frente encarregou-se de criar o espírito de liberdade e desencadeou, nesse tempo, a luta armada para a expulsão dos colonizadores espanhóis. Posteriormente, lutámos contra a Mauritânia, que também ocupou uma parte do território, e prosseguimos uma luta interminável contra Marrocos. Este foi o movimento que liderou a luta pela independência saharaui, movimento que, mais tarde, foi admitido como membro fundador da União Africana e que continua a liderar a luta de todos os saharauis pela libertação.



 Qual a situação atual com Marrocos em termos políticos?

Estamos numa situação de guerra, num lapsus temporal de cessar-fogo. O exército marroquino ocupa uma boa parte do território, e também o nosso exército controla uma parte importante do mesmo, que é onde agora nos encontramos realizando este congresso. Também temos população saharaui na parte do território ocupado por Marrocos. Aí, diariamente há manifestações reclamando o seu direito à autodeterminação, apesar de um bloqueio férreo e uma intensa guerra entre nós e Marrocos a nível internacional. Penso que temos conseguido importantes vitórias, conseguimos deixar claro a nível das Nações Unidas que o tema do Sahara Ocidental é um tema de descolonização pendente que deve ser resolvido com base nas resoluções das Nações Unidas sobre a autodeterminação, e que Marrocos é um ocupante. Na esfera africana conseguimos importantes avanços: o reconhecimento de países e da organização regional continental. Temos relações bilaterais com muitos países. Também travámos a batalha com Marrocos em todos os continentes, inclusive nos EUA, país com o qual Marrocos subscreveu um tratado de livre comércio. O tratado de livre comércio não foi firmado até que excluíssem o território reconhecido internacionalmente como o território do Sahara Ocidental. Houve um problema sério entre o Congresso e o Governo, mas no final tiveram que excluir o território do Sahara Ocidental do tratado de livre comércio. O tratado de livre comercio não deve incluir o território do Sahara Ocidental porque nem os EUA nem as Nações Unidas reconhecem nenhuma soberania sobre o mesmo. Antes de ontem soubemos que o Parlamento tinha revogado o acordo de pesca da União Europeia com Marrocos, revogando-o precisamente por incluir o território do Sahara Ocidental. Tudo conjuntamente com as negociações que ainda estão ocorrendo entre nós e Marrocos, que devem ser esclarecidas para alcançar apenas aquilo que é um acordo político.

Como pensa que irá ser o futuro da causa saharaui? Estamos a falar de um processo de paz com Marrocos ou estamos falando de um possível regresso à luta armada?

O nosso desejo é que o conflito se resolva via Nações Unidas e no respeito da legalidade internacional. Se isso não for possível obter, por Marrocos não respeitar a legalidade internacional, então não tenha a menor dúvida que pensaremos na guerra como uma opção legítima que tem o povo saharaui.

No entanto, esperamos e estamos convencidos de que a solução passa pelo respeito dos direitos dos saharauis a existir, como o teve o Sudão do Sul, como o teve Timor-Leste, como o teve a Namíbia, já que hoje ninguém pode rejeitar ou ignorar a existência do Estado saharaui soberano sobre o seu território.


Quais as conquistas mais importantes que teve a RASD desde a sua proclamação e os principais problemas e dificuldades que tem a nível interno?

A maior conquista do Estado Saharaui foi ter logrado a união de todo o povo saharaui - uma união entre aqueles que estão aqui, aqueles que estão nos campos de refugiados, os que estão nos territórios ocupados e os que estão na diáspora – em torno de um projeto nacional e em torno de uma bandeira que hoje todo o mundo, desde logo, está disposto a aceitar.

A segunda conquista mais importante foi ter criado um legítimo reconhecimento nos foros internacionais baseado no direito do povo saharaui à autodeterminação. Legitimou-se a existência do Estado Saharaui e a existência do projeto saharaui. Simultaneamente, conseguiu que efetivamente todo o mundo respeite esse direito e que reconheçam que Marrocos, tal como o estabeleceram as resoluções das Nações Unidas, é um ocupante ilegal.

Outro dos logros importantes é que demos claramente a entender ao próprio Marrocos, e ao exército de Marrocos, que não podem eliminar-nos pela via militar e que se acaso quiserem fazer todo o possível para nos eliminar, que se lembrem que não só não conseguiram ganhar-nos a guerra como não foram capazes de obter uma única vitória militar. Hoje temos um exército que todo mundo leva em conta dentro da região, especialmente Marrocos. Este exército é garante desde logo da soberania nacional.

A outra conquista importante é que atualmente o Estado Saharaui não só é uma realidade nacional, como uma realidade regional e mundial que alcançou inúmeros progressos. Conseguimos criar o Estado, criar um parlamento, criar instituições, ministérios e uma notória melhoria na qualidade da educação, o que levou a que os nossos índices sejam dos melhores da região. A RASD conta com reconhecimentos de uma quantidade importante de países a nível mundial e somos membros da União Africana.

As dificuldades são também enormes desde que, em 1975, a nossa população era perseguida, massacrada e obrigada a dispersar-se por todas as partes do mundo. Estas dificuldades conhecemo-las em todos os campos da vida política e pública, no entanto, ultrapassamo-las pensando na nossa justa causa e mesmo com grande sacrifício. Mas as dificuldades são visíveis em todos os campos, desde logo nos territórios ocupados, onde temos violações sistemáticas de direitos humanos, desaparecimentos e uma grande quantidade de presos políticos e presos de todo o tipo. Isso mostra-nos que a nossa população vive com medo e o Estado, como tal, tem grandes desafios pensando no futuro.

Fonte: El Libre Pensador / Por Jerónimo Delgado*


* Coordenador de Estudos Africanos na Faculdade “Finanzas, Gobierno y Relaciones Internacionales” da Colômbia. A entrevista ocorreu em Tifariti, territórios libertados do Sahara Ocidental.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Repórteres Sem Fronteiras mostra preocupação pela detenção de um jornalista saharaui



A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) expressou a sua preocupação pelo arresto e detenção em princípios do mês de julho do jornalista e militante saharaui Mahmud Haisan, que é acusado de "participar numa organização armada".

Em comunicado, RSF refere que Haisan, correspondente da cadeia da Frente Polisario, RASD TV, em El Aaiún (capital administrativa do Sahara Ocidental), compareceu ante o juiz no dia 21 de julho e nos próximos dias deverá conhecer-se se as acusações contra ele se mantêm.



RSF explica que no passado dia 4 de julho vários carros da polícia rodearam o domicilio do jornalista no centro da cidade e levaram-no para lugar desconhecido e que, após 48 horas sem qualquer informação sobre o seu paradeiro, as associações locais defensoras dos direitos humanos anunciaram que ele tinha sido trasladado para a prisão de Lakhal.

Repórteres Sem Fronteiras recorda que “a detenção de um jornalista devido às suas atividades profissionais constitui uma violação dos compromissos internacionais de Marrocos em matéria de liberdade de informação", sublinha no comunicado Virginie Dangles, adjunta da direção de RSF.


RSF, que tentou sem êxito entrar em contacto com o Ministério da Comunicação marroquino, insta as autoridades marroquinas a abrir uma investigação sobre "os maus tratos" que Haisan está a sofrer durante a sua detenção e que têm sido denunciados pelo seu advogado.

Vis manobras de Marrocos para travar a missão de Christopher Ross




Marrocos já não oculta o seu desejo de acabar, ou pelo menos travar, a missão do Representante Pessoal do Secretário-Geral da ONU, o diplomata americano Christopher Ross. Para isso, e como já vem sendo habitual, convoca os órgãos da imprensa marroquina que repetem em uníssono - o que mostra que a campanha é teleguiada a partir do Palácio Real – que uma " provável renúncia de Christopher Ross se confirma cada vez mais, dadas as escassas aparições do mediador da ONU, que deixou de fazer os seus périplos pelo Magrebe assim como pelas capitais envolvidas na resolução do conflito do Sahara Ocidental".

Estes meios, que citam fontes "bem informadas", afirmam que "o enviado pessoal do Secretário-Geral da ONU teria preferido atirar a toalha (...) devido às condições impostas por Rabat que exige a definição prévia da natureza da sua mediação".

Para a imprensa submetida às ordens do majzhen, "Christopher Ross confrontou-se ante a incapacidade de reatar o ciclo de reuniões infrutuosas entre Marrocos e a Frente Polisario”. A realidade é que as autoridades marroquinas levam atualmente a cabo, através de inúmeras publicações duvidosas, uma campanha de desinformação para alimentar falsos rumores sobre essa ‘renúncia provável’ do enviado pessoal para o Sahara Ocidental, o embaixador Christopher Ross , dando a entender que este teria decidido demitir-se. "Isso é totalmente falso", afirma-se nas Nações Unidas.

A próxima visita à região do emissário do SG da ONU, para a qual recebeu o acordo de princípio dos marroquinos, continua à espera e as autoridades marroquinas utilizam todos os subterfúgios - a ausência do rei, o Ramadão, etc. – para não responder à solicitação do Enviado Pessoal do Secretário-Geral da ONU, enquanto a Polisario e os países vizinhos, entre eles Argélia, já deram luz verde à iniciativa, informa fonte bem informada.

O objetivo desta campanha de desinformação é o de camuflar o facto de os marroquinos recusarem obstinadamente autorizar o enviado da ONU a visitar os territórios saharauis ocupados, porque sabem que esta visita será decisiva: terá lugar no marco da preparação de um relatório crucial que será elaborado por Christopher Ross e apresentado em outubro próximo ao Conselho de Segurança.

Mohamed VI estará em Washington na Cimeira EUA-África na tentativa desesperada de quebrar o seu isolamento...

É sobre esta base que o Conselho de Segurança procederá à avaliação das negociações que se encontram bloqueadas e proporá uma nova abordagem e um novo mandato para encontrar uma solução definitiva para este conflito. Solução que deverá inevitavelmente levar, tanto no conteúdo como na forma, à autodeterminação que deverá aplicar-se. Esse périplo acabará com todas as esperanças colocadas na tese da autonomia, o que explica a perturbação de Rabat ao ponto de a levar a ataques inventivos e indignos contra a Argélia.

Para isso, e após a infeliz declaração do chefe da diplomacia marroquina contra a Argélia – quando, na realidade, o ministro não gere o caso do Sahara Ocidental, uma vez que este está nas mãos exclusivas do Palácio Real - , Marrocos não pára de fazer uso da sua imprensa para desinformar e preparar o caminho a uma campanha insidiosa contra Ross, que será amplificada por Mohamed VI e pela sua comitiva na viagem a Washington para participar na Cimeira dos Estados Unidos e África, onde Marrocos - que deixou a organização pan-africana com rabo entre as  pernas -, foi convidado pela pressão de lobbies que paga com  milhões de dólares.

Mokhtar Bendib

ARTIFARITI 2014 / DERRUBAR O MURO



VIII Encontros Internacionais de Arte e Direitos Humanos do Sahara Ocidental

Wilaya de Bojador (Acampamentos População Saharaui Refugiada. Tindouf   Argélia)
 1 a 10 de novembro de 2014

Dar visibilidade ao muro da vergonha que separa as famílias saharauis entre a ocupação e o exílio foi o desafio que inspirou a criação de ARTifariti em 2007, um festival que nasceu reivindicando através da prática artística o direito dos indivíduos e dos povos à sua terra, à sua cultura, suas raízes e sua liberdade.


APRESENTAÇÃO DE PROPOSTAS:

Os artistas interessados em participar deverão enviar a sua proposta à organização de ARTifariti (info@artifariti.org) antes do dia 19 de setembro de 2014 para que a mesma seja analisada e valorada pela equipa de curadores.
A aceitação de projetos far-se-á segundo a data de receção, após o que se enviará carta de convite para que o artista possa recolher os fundos ao financiamento à sua participação.

OUTRAS FORMAS DE PARTICIPAÇÃO:

Outras pessoas interessadas em participar na qualidade de oradores ou assistentes nos seminários/atividades de ARTifariti 2014, cujo tema central será também “Derrubar o Muro”, podem dirigir-se à organização enviando uma carta.
A aceitação será também comunicada às pessoas interessadas
mediante carta convite.
         

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A vida dupla de Felipe González



Poucos espanhóis levam uma vida dupla tão definida como Felipe González. O ex-presidente [do Governo e antigo líder do PSOE] é um homem obcecado pelo dinheiro e a alta sociedade. Também é um homem feliz, uma vez que cumpriu os seus objetivos de se tornar rico e relacionar-se quase exclusivamente com as fortunas do planeta. Em Espanha, Felipe gosta de se vestir como um modesto professor de escola aposentado, algo intelectual, e dando a aparência de que acabou de sair do autocarro depois de uma viagem cansativa. Os seus hooligans, dentro e fora do PSOE, acreditam nesta miragem que ele próprio criou de si mesmo. Quando viaja para fora do país – desloca-se frequentemente em avião particular – Felipe aproveita então para fazer tudo aquilo o que, por discrição, não pode fazer em Espanha.

O ex-presidente passa metade do ano na América Latina, sendo figura regular nas luxuosas mansões que as suas riquíssimas amizades possuem espalhadas por todo o continente. Felipe foi visto na reserva natural que o magnata Gustavo Cisneros, da Venezuela, tem em Carabobo, empresário a quem, durante o seu Governo, vendeu as Galerias Preciados após a expropriação da Rumasa. Cisneros faz de feliz anfitrião, porque comprou a empresa em 1984 por 1.500 milhões de pesetas e revendeu-a três anos depois por 30 mil milhões de pesetas. Nós, contribuintes, perdemos 28.500 milhões de pesetas na operação, mas entre eles nasceu uma bela amizade que ainda perdura. Felipe também conhece bem o palácio que a poderosa família colombiana Santo Domingo possui na ilha de Barú. Nesta casa, no Caribe, esteve como convidado em março de 2009, quando se representou a si próprio num conclave de magnatas da América Latina e onde não faltou a sua outra metade, [o mexicano] Carlos Slim, o homem mais rico do mundo.

Em Espanha, Felipe gosta de se vestir como um pensionista que não tem meios para sobreviver até ao fim do mês, mas em Tânger tem uma propriedade exclusiva com praia privada contígua à do Rei Mohamed VI. E têm-na como concessão afetiva concedida pelo sátrapa magrebino, já que o sevilhano manteve uma relação invejável com seu pai [o rei Hassan II]. A excelente sintonia de Felipe com Hassan II facilitou a intermediação do rei Juan Carlos e, acima de tudo, a chuva de milhares de milhões de dinheiros públicos que, sob a forma de créditos para a compra de militar espanhol, caiu em Marrocos vinda da Espanha quando Felipe mandava. Desconhecemos se foram inspirados pelo Palau da Música e na família Pujol para gerir esses fundos, mas é bem conhecida a sua propensão para a poesia catalã. O Rei Juan Carlos e Felipe González apoiaram-se continuamente nos anos oitenta e noventa, ajudando-se na realização de seus objetivos, facilitando sempre um o trabalho do outro. Também colaboraram em tarefas de Estado e de Governo.

De tanto lidar com as grandes fortunas internacionais, Felipe acabou por ganhar os seus hábitos. Os filhos dos muito ricos não trabalham, e nenhum dos filhos varões do ex-presidente – todos quarentões e com a família – tem ocupação conhecida. Felipe também teve o seu desejo de criar um fundo de capital de risco, uma forma controversa de investimento com muitos detratores dada a facilidade com que permite gerar capital travestido de sucesso de negócio. O fundo chama-se Tagua Capital.



Felipe é hoje o único dinossauro da política capaz de, em menos de 24 horas, ser beijado por donas de casa e receptores PER [subvenções ao emprego rural] nos redutos do PSOE da Andaluzia rural mais castigada pelo desemprego e pela corrupção do seu partido; dançar bachata na República Dominicana com uma multimilionária num palácio próximo da mansão de Carme Chacón [política do PSOE, exerceu vários cargos ministeriais] sob o olhar de Oscar de la Renta [estilista e designer de moda dominicano, naturalizado norte-americano]. É entre os grandes bilionários onde se sente verdadeiramente confortável, as pessoas humildes que o aclamam nos comícios como uma estrela do rock, sempre as desprezou. No que respeita à gestão da imagem pública, Felipe González é um “aldrabão” profissional.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Uma evolução que inquieta Marrocos: a Frente Polisario nas manchetes da imprensa egípcia



Em Rabat, círculos marroquinos dizem-se alarmados pela notoriedade da questão do Sahara Ocidental na imprensa egípcia, sobretudo `pelo movimento de simpatia que mostra a causa saharaui. É o que reportam vários grandes quotidianos pan-árabes, como o “Al Hayat” e o “Al Quds Al Arabi”, editados em Londres, que referem que se regista agora uma mudança na postura oficial do Cairo sobre o velho conflito do Sahara Ocidental, pelo menos desde a aproximação entre a Argélia e o Egipto, que se refletiu, em particular, com a visita do presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, à Argélia o mês passado.

Observa-se, de facto, uma campanha mediática no Egipto, onde surgiram longas entrevistas com responsáveis da Frente Polisario e reportagens realizadas por vários periódicos egípcios nos últimos dias, que evidenciam uma franca solidariedade com a tese da autodeterminação do povo saharaui, considerando a presença marroquina no Sahara Ocidental como uma ocupação que deve terminar.



O periódico "Misr Al Yawm” publicou numa das suas edições da semana passada um importante artigo sobre a questão saharaui. Por seu lado, a revista egípcia "Rose Al Youssef” dedicou várias páginas ao conflito do Sahara Ocidental, onde figura com grande destaque uma longa entrevista com o presidente saharaui Mohamed Abdelaziz. Este último parece ter aproveitado a oportunidade para pôr tudo sobre a mesa. "A Frente encontra-se sob a pressão dos jovens, cansados ​​de viver nos acampamentos e que querem voltar à guerra", declarou.



O Presidente Abdelaziz deplorou o facto de a UE ter reduzido em 60% a sua ajuda aos acampamentos de Tindouf. Atribuiu esta diminuição às "consequências da crise económica". Mas, sobretudo, criticou a falta de participação dos países árabes em encontrar uma solução duradoura para o conflito do Sahara Ocidental.

Em resposta, sítios de notícias marroquinos (ou sítios de propaganda, conforme o ponto de vista), criticam violentamente a perda por parte do Egipto da sua neutralidade no conflito, algo que sucedeu no passado, não só com o Egipto, mas também em relação a muitos países árabes, especialmente no âmbito da Liga Árabe. A imprensa marroquina, em particular a que é próxima do governo islamita de Marrocos, aproveitou para qualificar o atual executivo do Cairo como ilegítimo depois do golpe militar contra o ex-presidente e líder dos Irmãos Muçulmanos, Mohamed Morsi.

Uma «bronca» na ON TV: a apresentadora Amani El Khayat qualificou Marrocos de «Bordel"

As relações entre os dois países deterioraram-se seriamente com a gafe de uma apresentadora [Amani El Khayat] de uma cadeia de televisão egípcia ON TV (propriedade do patrão da Orascom, Naguib Sawiriss) que qualificou Marrocos como "bordel". O ministro egípcio dos Negócios Estrangeiros, Sameh Shokry, teve que reagir, expressando a sua desaprovação, reuniu com os patrões dos meios de comunicação e sublinhou numa declaração ao Al Ahram "as boas relações" entre o Cairo e Rabat especialmente desde o dia 3 de julho de 2013 (queda de Mohamed Morsi – nota do tradutor). Simultaneamente, encarregou o embaixador egípcio em Rabat a emitir, quinta-feira, 17 de julho, um comunicado em que expressa a sua indignação e repúdio pelas declarações proferidas pela apresentadora da televisão  egípcia sobre Marrocos.


Fonte: Le Jour d'Algérie, 22/07/2014

RASD: Justiça sem Guerra?




Um documentário de Josep Lluís Penadés (51’ 33’’).

“Yahia Mulay tem 21 anos e deseja a guerra. Não a desejaria se vivesse no seu país e não num campo de refugiados com mais de 30 anos de existência onde se padece de má nutrição; se não visse como torturam e assassinam impunemente os seus compatriotas; se para poder ser universitário não se tivesse visto obrigado a viver oito anos ilegalmente em Espanha sem poder ver a sua família; se a Espanha tardofranquista não tivesse entregado o seu país a Marrocos e à Mauritânia ante a passividade de uma comunidade internacional que ignorava as resoluções da ONU… Como Yahia, milhares de jovens saharauis desejam a guerra, ignorantes de outra forma de vida.”

“Marrocos financia indiretamente a AQMI com o objetivo de incriminar a Argélia e a Polisario”

 
Hicham Bouchti

O ex-oficial dos serviços de inteligência marroquinos conhecidos sob a sigla de DST, Hicham Bouchti, confirmou a implicação do rei de Marrocos, Mohamed VI, no tráfico de drogas e as ligações dos serviços secretos marroquinos com movimentos terroristas na região, como a AQMI e o MUJAO.
Numa entrevista concedida ao diário argelino “Echorouk”, Bouchti declarou que “o rei tornou-se rico graças ao tráfico de cannabis.

Não é preciso ser muito inteligente para saber que uma das fontes de enriquecimento da monarquia marroquina é o tráfico internacional de drogas”.

“Marrocos financia indiretamente a Al-Qaeda no Magrebe Islâmico para que possa prosseguir as suas atividades na região e assim matar dois pássaros com um só tiro: acusar a Argélia de ser um foco de terrorismo e colar à Frente Polisario a etiqueta de organização terrorista”, acrescentou.

Com o fito de se apresentar às potências ocidentais no papel de “gendarme da região e atrair o seu dinheiro em nome da luta contra o terrorismo, a monarquia não hesitou em reprimir e torturar cidadãos marroquinos inocentes para os apresentar como terroristas, afirmou Bouchti.

Interrogado sobre a relação entre o rei e a instituição militar e os corpos de segurança marroquinos, Bouchti declarou que esta relação é semelhante à que existe entre o Padrinho e a Máfia, exceto quando atendem à diretiva dada por Hassan II aos oficiais do exército depois das duas tentativas de golpe em 1971 e 1972 de " interessá-los pelo dinheiro, mas afastá-los da política"

O ex-espia marroquino disse que o que o havia levado a deixar os serviços secretos marroquinos “foi a ausência de uma lei que enquadre esses serviços e defina a sua missão”. “Ao mesmo tempo que – acrescenta - , não existe um contrato institucional para proteger os cidadãos contra o abuso dos seus oficiais”, sublinhando que “os serviços não estão sob nenhum controlo da justiça nem do Parlamento e que aproveitam este vazio jurídico para reprimir e cometer injustiças e burlar a lei no exercício das suas funções“.

“Eu trabalhava para a inteligência militar. Tínhamos contacto com mais de 12 serviços de inteligência, em primeiro lugar a DGED (Direção-Geral de Estudos e Documentação), a DST (Direção de Vigilância do Território) e o DAG, um serviço que depende do Ministério do Interior e fui testemunha de operações de sequestro, tortura, corrupção, suborno e tráfico de drogas levadas a cabo por responsáveis desses serviços”, disse.


Fonte: Diáspora Saharaui