segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Efeméride: as tropas saharauis guiadas pelo Cheikh Malaïnin levam o sultão de Marrocos a abdicar


Uma efeméride muito interessante esta do 11 de agosto do ano de 1912, data da abdicação do sultão de Marrocos, Mulay Hafid, em troca de uma pensão de 400 mil francos do governo francês para tratar a dispepsia e neurastenia.

Moulay Hafid era o irmão do sultão Abdelaziz. Reprovava ao irmão a sua passividade face à penetração colonial francesa e aos acordos de Algeciras que colocavam uma parte de Marrocos sob a tutela da França e da Espanha.

Moulah Hafid, com a ajuda do Pacha de Marraquexe, Madani El Glaoui, procede à destituição do seu meio-irmão, mas eles não contaram com o espírito rebelde dos chamados Bled Siba que se recusaram a declarar lealdade ao sultão de Marrocos. Em 1911, a situação deteriorou-se. Sitiada pelas tropas saharauis sob o comando de Cheikh Malainin, o Sultão Moulay Hafid é forçado a pedir a ajuda da França. O General Moinier, à cabeça de um exército de 23.000 soldados, liberta o sultão a 21 de maio 1911: é o início da colonização francesa. A situação é irreversível e culmina na convenção de Fez de 30 de março de 1912 que faz do Marrocos um protetorado francês. No mesmo ano, Moulay Hafid abdica a favor do seu irmão Moulay Youssef.

Segundo o Le Petit Journal de domingo de 25 de agosto de 1912, o destituído sultão havia manifestado a intenção de fazer uma peregrinação a Meca, mas o General Lyautey impediu-o.

Um século depois, a monarquia alauita sobrevive graças ao apoio da França.


Marrocos: O Makhzen prepara um atentado terrorista de grande envergadura [?]


A ameaça terrorista é um dos meios mais utilizados pelo governo marroquino para atrair o apoio dos seus antigos aliados. Com esse objetivo, Marrocos tudo tem feito para incriminar os saharauis e manchar o seu nome. Agora que a ONU se mostra decidida a passar à velocidade superior para resolver a questão saharaui, é muito provável que o Makhzen recorra a uma ação de grande escala. O anúncio constante de desmantelamento de células terroristas é disso uma prova irrefutável...

Os ataques do 11 de setembro de 2001 constituem uma viragem nas relações entre os EUA e a Argélia, país até então diabolizado pelo Ocidente em virtude da sua luta contra a escalada islamita no país.

As respostas da Argélia às observações do Comité contra e o terrorismo consagradas na resolução 1373 (2001) do Conselho de Segurança servirão para justificar uma parceria privilegiada com os EUA.

«A Argélia é um dos raros países a ter implantado, desde a aparição do fenómeno terrorista, um forte dispositivo jurídico com vista a o prevenir e combater. O quadro legislativo e regulamentar foi progressivamente melhorado e adaptado para melhor atender à evolução das atividades terroristas e à sua natureza transnacional. O arsenal jurídico existente cobre o conjunto das atividades ligadas ao terrorismo e responde às necessidades da cooperação internacional», de acordo com o relatório da Argélia.
 

Janet Sanderson, embaixadora dos EUA
Em entrevista concedida ao diário La Tribune, de 18/6/2003, Janet Sanderson, embaixadora dos EUA em Argel, declarou: «Vocês, infelizmente, têm muito mais experiência no que diz respeito ao terrorismo. É difícil encontrar um argelino que não tenha sido atingido pelo terrorismo. Nos EUA, os acontecimentos do 11 de setembro foram um choque e não quero subestimar o impacto desses acontecimentos entre nós e entre vós. Vocês perderam uma quantidade enorme de gente num decénio. É pena que nós, e outros países, tenhamos entrado nesta luta, neste conflito, mais tardiamente».

A comunidade internacional reconhecia por fim os méritos do combate da Argélia contra o flagelo do terrorismo.

Esta aproximação entre os EUA e a Argélia e o estatuto acordado a este último enquanto país pioneiro na luta antiterrorista foi mal visto em Rabat que, até então, se apresentava como aliado incontornável e bastião contra o terrorismo.

Foi nesse momento que os EUA designaram o antigo Secretário de Estado James Baker como Enviado Pessoal do SG da ONU para o Sahara Ocidental. Uma designação que não era do agrado das autoridades marroquinas.

O apoio da Espanha ao plano Baker e ao recenseamento realizado pela MINURSO para a realização do referendo de autodeterminação no Sahara Ocidental provocaram a cólera do governo marroquino. A isto veio acrescentar-se a anulação do acordo de pesca. Marrocos reclamava a mesma remuneração económica (90 milhões de euros) além de reduzir 80% das embarcações, e mudando a forma de contratos destes barcos. A 11 de julho de 2002, Rabat decide ocupar a Ilha de Persil (Salsa). A reação do presidente do Governo espanhol, José Maria Aznar, apoiado por Washington, foi firme. Fuzileiros espanhóis foram mandados para a ilha para desalojar os marroquinos.



Espanha pagará um ano mais tarde a humilhação feita ao governo marroquino. Na noite de 16 de maio de 2003, vários atentados farão 45 mortos e meia centena de feridos, o atentado mais sangrento tem lugar no restaurante Casa de Espanha, onde os clientes jantavam ou jogavam ao bingo. Fez 20 mortos. A estória oficial contada na altura é que, graças ao bem-abençoado Mohamed VI, dois dos kamikazes renunciaram a fazer-se explodiir, o que permitiu  à polícia seguir a pista e desativar os atentados previstos para eclodir nas cidades de Marraquexe, Tânger, Fez e Agadir.

Casa de Espanha - atentado de 16 maio 2003

O tiro de partida estava dado. Não são só os serviços de segurança argelinos que são eficazes na luta contra as redes terroristas. O perigo obscurantista também pode vir de Marrocos, especialmente se lhe quiserem tirar as terras do Sahara Ocidental. Esta é a mensagem que Marrocos pretendeu transmitir ao Conselho de Segurança que irá se pronunciar dois meses depois sobre o Plano Baker II, que a Frente Polisario irá aceitar, mas que Marrocos rejeitará.

Um dado comum que caracteriza todos os atentados cometidos em Marrocos é o facto deles coincidirem sempre com as reuniões do Conselho de Segurança que se revelem decisivos para a resolução do conflito do Sahara Ocidental. E sabe-se que o povo marroquino é um dos povos mais tolerantes e mais abertos no mundo árabe-muçulmano. Mesmo Driss Basri, [braço direito do rei Hassan II] antigo ministro e patrão dos serviços de segurança de Marrocos exprimiu as suas reservas sobre os presumíveis autores destes atentados cometidos no país.

Segundo Basri, Hassan II queria que o seu povo fosse visto como um exemplo de tolerância e uma ponte entre as civilizações europeias e muçulmana. Que estas histórias de atentados tenham surgido depois da sua morte, «isso surpreende-me», declarou o antigo patrão dos serviços de segurança.

«Marrocos nunca viveu sob um sistema de partido único e sempre conheceu um sistema político plural e liberal. Eu pergunto-me, tal como pensam os especialistas do islamismo em Marrocos, se este anúncio dramatizado não passará de uma manipulação para uso internacional", concluía Driss Basri.

Neste atentado, os espanhóis foram os mais punidos. Vingança em relação ao assunto da ilha de Persil? Em todo o caso, alguns meses mais tarde - e justamente antes do Enviado Pessoal do SG da ONU James Baker se demitir -, a gare de Atocha de Madrid foi vitima de um atentado que foi qualificado como o «11 de setembro espanhol» e a grande maioria dos seus autores eram marroquinos. Foi um acaso? Nada é menos certo, o atentado foi executado três dias antes das eleições gerais que farão cair o governo de José María Aznar, considerado por Marrocos como inimigo jurado.



A 12 de março de 2007, ainda uma história incoerente: um kamikaze marroquino morre ao acionar uma bomba que escondia sob as suas vestimentas num cybercafé de Casablanca, enquanto um outro kamikaze empreendeu a fuga e foi detido pela polícia.

A Direção Geral da Segurança Nacional (DGSN), citada pela agência marroquina MAP, explicava que, a 12 de março de 2007, pelas 22H00 locais (GMT), dois marroquinos introduziram-se no cybercafé de Sidi Moumen para «tentarem consultar sites na internet que fazem a apologia do terrorismo». O filho do proprietário do cybercafé impediu-os de consultar os sites e «um dos dois indivíduos fez explodir uma carga explosiva dissimulada nas suas vestes e morreu», segundo a DGSN, citada pela MAP.

14 de abril de 2007 em Casablanca : dois irmãos fizeram-se explodir perto do consulado geral dos EUA e de uma escola de línguas americana. Quinze dias mais tarde, o Conselho de Segurança pronuncia-se pela negociação entre as partes «com vista a alcançar uma solução política justa, duradoura e mutuamente aceite que permita a autodeterminação do povo do Sahara Ocidental».


28 de abril de 2011: Café Argana, um kamikaze faz-se explodir num café situado na turística praça Jemaa el Fna, fazendo pelo menos quatorze mortos, oito dos quais franceses. Uma grande parte da opinião pública marroquina pensa que este atentado foi cometido por meios oficiais com o objetivo da parar a evolução da Primavera Marroquina. Este atentado servirá de alibi para amordaçar o movimento do «20 de Fevereiro» ao ressuscitar o fantasma «da guerra de prevenção contra o terrorismo» com o seu corolário de detenções arbitrárias e de regressão ao nível das liberdades públicas.

Neste momento, o Conselho de Segurança dispõe-se a passar ao Capítulo VII, com o objetivo de adotar uma resolução vinculativa a fim de pôr fim ao conflito do Sahara Ocidental. Marrocos agita de novo, a ameaça terrorista. É de temer que o Makhzen repita os cenários que os marroquinos já conhecem.


Domingo, 03 de agosto de 2014
Fonte: diáspora saharaui


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Marrocos aceita oficialmente a nacionalidade saharaui



A posição do Reino de Marrocos sobre o conflito do Sahara Ocidental é uma postura que pode qualificar-se, no mínimo, de algo esquizofrénica. Ao mesmo tempo que no interior afirma que o Sahara Ocidental forma parte da "integridade territorial" de Marrocos, no exterior vota a favor de resoluções na Assembleia Geral ou no Conselho de Segurança onde se reconhece que o Sahara Ocidental não faz parte da "integridade territorial" marroquina dado que é um "território não autónomo" pendente de descolonização e com direito à autodeterminação. O último episódio desta esquizofrenia dá-nos um órgão de informação marroquino que revela que o Reino de Marrocos reconhece agora a nacionalidade saharaui. Recordemos que toda a crise da deportação de Aminatu Haidar ocorreu por [Marrocos] não reconhecer a nacionalidade que agora reconhece.


I. RECORDANDO: A ORIGEM DA DEPORTAÇÃO DE AMINETU HAIDAR EM NOVEMBRO DE 2009
Para situar esta informação no seu contexto convém recordar as circunstâncias que provocaram a deportação de Aminetu Haidar.

Aminetu Haidar é uma cidadã saharaui que se encontra entre os cidadãos saharauis a quem a ONU no seu censo de população do Sahara Ocidental de 1999 reconhece o direito a votar no referendo de autodeterminação.

Haidar esteve 4 anos "desaparecida" numa prisão secreta marroquina (1987-1991) e voltou depois a ser encarcerada por Marrocos em 2005.

A cidadã saharaui Aminetu Haidar chegou, procedente de Espanha, ao aeroporto da capital ocupada do Sahara Ocidental, El Aaiun. Ali, no momento de preencher a ficha no controlo aeroportuário escreveu no item "nacionalidade" que a sua era SAHARAUI.

Em razão disto, a potência ocupante, Marrocos, com a cumplicidade do governo espanhol de Rodríguez Zapatero e do seu ministro de Negócios Estrangeiros Moratinos deportou-a ILEGALMENTE, depois de a ter privado do seu passaporte.

Após uma greve de fome (já anteriormente havia feito uma na prisão marroquina em 2005), conseguiu que se lhe reconhecesse o seu DIREITO a entrar e sair livremente do seu país, o Sahara Ocidental.


II. MARROCOS RECONHECE AGORA A NACIONALIDADE SAHARAUI
A informação é fornecida por um jornal on-line marroquino chamado "Le360" numa informação exclusiva com data de "2014/08/05" às "15h26" e assinada por
Mohamed Chakir Alaoui.

O diário afirma o que reproduzo aqui no seu texto original e que depois traduzo (os sublinhados em negrito seu meus):

Des dizaines d’activistes sahraouis ont embarqué à destination de Boumerdès pour participer à une université d’été du polisario. Il s’agit du 36ème périple du genre organisé depuis juillet 2009.
(...)
"Ils ont été choisis par la centrale de Tindouf, pour prendre part aux travaux de l’université d’été des cadres de la pseudo Rasd", expliquent nos sources. Prévue du 3 au 21 août, dans la ville algérienne de Boumerdes, cette université d’été a pour thème "la politique d’expansion et d’exportation de la drogue, une entrave au rêve des peuples maghrébins". Lors des formalités de police, effectués à l’aéroport Mohammed V -d’où ils ont quitté le royaume- 26 membres de ce groupe ont porté sur la case réservée à la nationalité du voyageur (figurant sur la fiche d’embarquement), la mention "sahraouie", tandis que 11 ont inscrit "Sahraoui porteur de passeport marocain". Une provocation devant laquelle, les services de police ont réagi avec sagesse, ne voulant pas retomber dans le précédent Aminatou Haïdar qui avait fait tant de remous.

Traduzo

Dezenas de ativistas saharauis embarcaram (em Casablanca) com destino a Bumerdés para participar numa universidade de verão da Polisario. Esta é a 36.ª viagem deste tipo organizada desde Julho de 2009 - (...)
"Foram escolhidos pela central de Tindouf para tomar parte nos trabalhos da universidade de verão de quadros da pseudo (sic) Rasd", explicam as nossas fontes. Prevista para decorrer de 3 a 21 de agosto na cidade argelina de Bumerdés, esta Universidade de verão tem por tema "A política de expansão e de exportação de droga, um obstáculo ao sonho dos povo magrebinos". Por ocasião das formalidades policiais, efetuadas no aeroporto Mohamed V (de Casablanca) - de onde saíram do reino - 26 membros deste grupo puseram no Espaço reservado à nacionalidade do viajante (que figura na ficha de embarque) a menção "saharaui", enquanto 11 escreveram "Saharaui portador de passaporte marroquino". Uma provocação (sic) ante à qual os serviços de polícia atuaram com prudência, não querendo voltar a cair no precedente de Aminetu Haidar que provocou tantas turbulências.


III. CONCLUSÃO: CONFIRMA-SE QUE MARROCOS RECONHECE PROGRESSIVAMENTE O POVO E O ESTADO SAHARAUI


Esta informação deve juntar-se à anterior. Marrocos não só reconheceu o "Estado" saharaui como estes dados confirmam que também reconhece a "nacionalidade" saharaui.


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ross visita a região antes de outubro – afirmam fontes da ONU

Chistopher Ross, tendo a seu lado o Governador da Wilaya de Smara (acampamentos de refugiados)

O Enviado Pessoal do SG das Nações Unidas para o Sahara Ocidental, Christopher Ross, anunciou a sua intenção de visitar a região antes da reunião da Assembleia Geral da ONU, em setembro, soube-se de fontes da ONU.

A mesma fonte negou o que foi recentemente propagado por alguns meios de comunicação marroquinos a respeito da "suposta" renúncia do mediador internacional, confirmando que Ross prossegue a sua missão, de que foi encarregado pelo Conselho de Segurança e reafirmado na Resolução 2152 de abril (2014), com vista a relançar o processo de negociação através de consultas entre as partes em conflito e de consultas diplomáticas a fim de chegar a uma solução para a questão do Sahara Ocidental.

"Esses rumores refletem a situação grave em que se encontra o regime marroquino devido à sua rejeição da legitimidade internacional e africana e à sua negligência relativamente às recomendações da ONU e da UA", afirmou a mesma fonte, numa referência à designação pela União Africana (UA) do ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano como enviado especial para o Sahara Ocidental.

"Rabat encontra-se também num ‘isolamento internacional e africano’ e que se agrava cada vez mais por causa das suas contínuas violações do direito do povo saharaui à autodeterminação, dos direitos humanos e a não-conformidade com a vontade da comunidade internacional e pela pilhagem dos recursos naturais de um território que está sob a responsabilidade das Nações Unidas", sublinhou.

A mesma fonte referiu ainda que o Relatório do Secretário-Geral da ONU, de abril de 2014, a resolução do Conselho de Segurança, a proposta de Washington e as vozes que pedem a proteção dos direitos humanos no Sahara Ocidental ocupado colocaram Rabat perante uma "nova realidade", e confirmam que a questão do Sahara Ocidental começou a entrar numa nova fase.

Recorde-se que Ban Ki-moon pediu no seu último relatório, de 17 de abril último, uma revisão do processo de negociação entre as duas partes comprometido desde 2007 se, em abril de 2015, nenhum progresso for registado para a solução do conflito.

SPS

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Delegação dos Territórios Ocupados na Universidade de Verão da Frente POLISARIO




Chegou ontem a Boumerdess uma delegação dos territórios ocupados do Sahara Ocidental para participar na 5.ª Universidade de Verão de Quadros da Frente Polisario e da RASD que se realiza entre 3 e 23 de agosto naquela cidade argelina.
A participação desta delegação contribui para romper o cerco mediático imposto por Marrocos sobre as zonas ocupadas da RASD.

Foto: A delegação dos Territórios Ocupados em Boumerdess


População cristã em Marrocos vítima de pressões

 
Catedral de São Pedro em Rabat

O Secretário de Estado americano divulgou o seu relatório sobre a liberdade de culto. O relatório revela o estado de discriminação de que é alvo a população cristã em Marrocos.

Cerca de 5 000 cristãos residem no reino. Esta é uma das muitas constatações feitas pelo Secretário de Estado dos EUA na edição de 2013 do seu relatório anual sobre a liberdade religiosa publicado no passado dia 28 de julho. A população cristã de Marrocos coexiste com os muçulmanos xiitas, uma comunidade que tem entre 3.000 e 8.000 pessoas e cerca de 400 bahá'ís. O estudo, que se parece substancialmente com produzido em 2013 pelo departamento de John Kerry, incide também sobre a repressão de que são vítimas os membros dessas comunidades.

Fonte: Telquel – publicação marroquina