sábado, 5 de maio de 2012

Militares e políticos saharauis anti-Polisario repartem lucros da pesca



Nas águas do sul de Marrocos e do Sahara Ocidental, um dos melhores bancos pesqueiros do mundo, as licenças de pesca que autorizam a fainar estão em mãos de militares marroquinos de alta patente e de políticos saharauis partidários de Rabat na disputa que enfrenta à Frente Polisario, movimento que reivindica a independência dessa antiga colónia espanhola. O primeiro a obter uma licença, há já muitos anos, foi o general Abdelaziz Bennani, de 66 anos, comandante chefe da zona sul (Sahara) e inspetor geral das Forças Armadas, segundo revelou o diario Akhbar al Youm de Casablanca.

O ministro islamita dos Transportes, Abdelaziz Rabah, criou um mau precedente aos olhos de milhares de marroquinos que desfrutam gratuitamente e por toda a vida das ditas licenças. A fim de “desenvolver a transparência” e de permitir exercer “o direito de acesso à informação” dos cidadãos colocou na página web do seu ministério 400 páginas com 4.118 nomes. São os beneficiários, alguns desde há 40 anos, de licenças para operar transporte urbano e interurbano. A lista contém surpresas.


General marroquino A. Bennani,
Comandante da Zona Zul (Sahara Ocidental)
Junto com transportadores profissionais figuram artistas, desportistas, ex-ministros, imãs, o falecido pai de Fouad Ali el Himma, conselheiro do rei de Marrocos, vários ex-membros da Polisario, como Brahim Hakim e Gasmoula Ben Ebbi, agora alinhados com Rabat, e Miloud Tounzi, um  ex-polícia dos serviços secretos reclamado pela justiça francesa pela sua presumível participação no sequestro e assassinato de Mehdi Ben Barka, principal opositor ao rei Hassan II.

O interesse dos marroquinos foi al que a web dos Transportes bloqueou. O ministro Rabah despertou o apetite dos marroquinos que agora querem saber mais. “Agora, esperamos as listas de Laenser e Akhnnouch”, titulava um editorial da página web informativa Lakome, referindo-se aos responsáveis do Interior e da Agricultura e Pesca, que também concedem licenças a dedo para vender álcool em lojas e restaurantes ou para pescar.

General Housni Bensliman,
chefe da Gendarmeria
 
O diario Akhbar al Youm antecipou-se ao exercício de transparência que dificilmente fariam esses Ministérios, em mãos de não islamitas. Publicou os nomes dos principais detentores de licenças de pesca que, por ordem cronológica, é encabeçada pelo general Bennani. Um telegrama enviado em 2008 para Washington pelo então embaixador dos EUA em Marrocos, Thomas Riley, já havia revelado os grandes negócios deste chefe militar, segundo revelou o Wikileaks.

“Um rumor muito amplo indica [que o general Bennani] possui uma boa parte das pescas no Sahara Ocidental”, escreveu o diplomata. “Informações credíveis indicam que o tenente-general Bennani aproveita a sua posição de comandante do setor sul para sacar  dinheiro dos contratos militares e influir sobre as decisões empresariais”, acrescentava.

Outros dos pesos pesados, o general Housni Bensliman, chefe da Gendarmeria, e Abdelhak Kadiri, ex-inspetor geral das Forças Armadas, também possuem um bom punhado de licenças, cuja exploração cederam, mediante pagamento, a armadores marroquinos e espanhóis. As licenças não se ppodem vender, mas o seu usufruto pode ser transferido. Bensliman e Kadiri também são reclamados pela justiça francesa como testemunhas no âmbito da investigação sobre o caso Ben Barka.

Na lista figuram também um par de coronéis, políticos –a maioria saharauis, a antiga dona francesa da discoteca Amnesia de Rabat, frequentada então pelo atual rei Mohamed VI, e Abdelmoughit Slimani, cunhado do então poderoso ministro del Interior, Driss Basri. Só Slimani possui 56 licenças, ou seja, quase metade (119) das outorgadas por Rabat à União Europeia no acordo de pesca que o Parlamento Europeu recusou prorrogar em dezembro. A Comissão Europeia pagava a Rabat 36 milhões de euros por ano por esse acordo.

El Pais – Ignacio Cembrero

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