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segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Sinais de uma crise entre Marrocos e os Emirados Árabes Unidos. Website dos Emirados entrevista o presidente saharaui Brahim Ghali

 


 AF – Argel - Depois de durante muitos anos os meios de comunicação social dos EAU se terem entrincheirado nas fileiras da ocupação marroquina do Sahara Ocidental, eis que o website 'Erem News' causou uma grande surpresa através de uma entrevista ao presidente saharaui Brahim Ghali.

O site erem news dos Emirados entrevistou o Presidente saharaui Brahim Ghali, na qual este retoma a crise fabricada por Marrocos contra a Tunísia devido à participação da República Árabe Saharaui na cimeira “TICAD 8” na Tunísia.

Neste diálogo, o presidente saharaui considerou que a posição indignada de Marrocos em relação à Tunísia é muito exagerada, acusando Rabat de praticar “chantagem” contra a Tunísia depois de esta o ter recebido com uma delegação oficial para participar na cimeira “TICAD 8”.

Brahim Ghali recebido pelo Presidente tunisino durante a TICAD 8


Ghali diz que a Tunísia teve um sucesso retumbante em acolher a Cimeira de Tóquio para o Desenvolvimento Africano (TICAD), apesar de todas as tentativas vergonhosas de a frustrar ou de comprometer a soberania, a reputação e a posição da Tunísia a nível regional, continental e internacional.

Comentando a controvérsia que acompanhou a sua participação na cimeira, e a posição irada de Marrocos sobre esta iniciativa, Ghali afirmou: "Os africanos resolveram claramente em 2015, na Cimeira de Joanesburgo a questão da participação de todos os Estados membros da União Africana em qualquer parceria em que a União se comprometa. Dois anos antes do regresso de Marrocos à União Africana, consideraram que se tratava de um direito ligado à adesão e que isso não era negociável, rejeitando qualquer interferência a este respeito de partes parceiras ou outras.

O dirigente saharaui acrescentou que os membros da União Africana "resolveram também a candidatura para acolher a cimeira (TICAD 8) organizada pela União Africana com o seu parceiro japonês e outros patrocinadores, e depositaram a devida confiança na Tunísia, que demonstrou não só a sua capacidade de organizar um evento de tal envergadura, mas também a sua estrita adesão aos princípios do direito, à Assembleia Constituinte da União Africana, bem como a normas diplomáticas bem conhecidas, para não mencionar a sua adesão à sua decisão independente como fórum livre

Ghali sublinhou: "Recebemos um caloroso acolhimento por parte do Presidente tunisino Kais Saied, em pé de igualdade com todos os chefes de Estado, de governo e de delegações, sem discriminação entre os membros da União Africana, e foi isto que os países anfitriões fizeram, antes e depois da adesão do Reino de Marrocos à União Africana.

Relativamente à convocação do embaixador marroquino na Tunísia, Ghali afirmou: "Se o Reino de Marrocos convoca o seu embaixador simplesmente porque a Tunísia recebe o chefe de um Estado membro fundador da União Africana, há muitos países no mundo, em África e na América Latina que não se contentam com a habitual receção oficial, mas estabelecem relações diplomáticas plenas com a República Saharaui, acolhendo as suas embaixadas, bem como as embaixadas do Reino de Marrocos, então porque é que o Ministério dos Negócios Estrangeiros marroquino não cortou relações diplomáticas com esses países nem fez declarações cheias de ameaças e de desprezo, como a que fez contra a Tunísia?

Na sua entrevista ao website dos Emirados, Ghali afirmou que "a República Saharaui e o Reino de Marrocos participaram em muitas cimeiras de parceria, incluindo com a presença pessoal do Rei de Marrocos ao seu lado, como foi o caso na cimeira de parceria África-Europa" na Costa do Marfim, 2017, e com as suas delegações oficiais na ocasião. O mesmo aconteceu em Moçambique, Japão e Bruxelas, sem esquecer a presença permanente das delegações dos dois países nas várias cimeiras, conferências e actividades da União Africana, desde a adesão do Reino de Marrocos, no início de 2017.

 

sábado, 27 de agosto de 2022

Marrocos chama embaixador na Tunísia por causa do Sahara Ocidental e a Tunísia responde e chama o seu em Rabat

 


Marrocos chamou esta sexta-feira o seu embaixador na Tunísia após o Presidente tunisino Kais Saied ter recebido o Presidente da República Árabe Saharaui Democrática (RASD) e SG da Frente Polisario que luta pela independência para o Sahara Ocidental, um território que Marrocos ocupa desde 1975.

A Tunísia acolhe este fim-de-semana a Conferência Internacional de Tóquio sobre Desenvolvimento Africano, uma reunião que incluirá chefes de Estado de países africanos.

Para o MNE do Reino de Marrocos, a decisão da Tunísia de convidar Brahim Ghali para uma cimeira de desenvolvimento japonesa para África que Tunes acolhe este fim-de-semana foi "um acto grave e sem precedentes que fere profundamente os sentimentos do povo marroquino".

O ocorrido abre uma nova frente na série de disputas regionais e mostra o isolamento com que Marrocos se depara tanto no Magrebe como no continente Africano. Recorde-se que a RASD é membro fundador da União Africana desde maio de 2001. Marrocos só viria a aderir à organização pan-africana em 30 de janeiro de 2017, sendo o único Estado do continente africano que permanecia à margem.

Marrocos foi membro fundador da Organização de Unidade Africana (OUA), a antecessora da UA, em 1963, mas decidiu abandonar em 1984 devido à admissão da República Árabe Saharaui Democrática (RASD).

Numa declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Marrocos afirma que já não participa na cimeira. Também acusou a Tunísia de ter recentemente "multiplicado as posições negativas" contra Marrocos, e que a sua decisão de acolher Ghali "confirma a sua hostilidade de uma forma flagrante".

Ganhar o reconhecimento da sua soberania sobre o Sahara Ocidental tem sido, desde há muito, o objectivo primordial de Marrocos em matéria de política externa. Em 2020, o então presidente Donald Trump dos Estados Unidos reconheceu a sua soberania em troca de Marrocos acordar laços mais estreitos com Israel.

Desde então, Marrocos tomou uma posição mais dura sobre o Sahara Ocidental, retirando os seus embaixadores em Espanha e Alemanha até se aproximarem da sua posição sobre o território.

Por seu lado, a Argélia retirou o seu próprio embaixador em Espanha, um importante cliente do gás argelino, após a súbita mudança de Madrid sobre o Sahara Ocidental.

Com resposta à decisão o Ministério dos Negócios Estrangeiros, Imigração e Tunisinos no Estrangeiro emitiu hoje um comunicado em que afirma:

 

“– A Tunísia manteve a sua total neutralidade sobre a questão do Sahara Ocidental no que diz respeito à legitimidade internacional, uma posição firme que não mudará até que as partes envolvidas encontrem uma solução pacífica aceitável para todos.

– Tal como a Tunísia respeita as resoluções das Nações Unidas, também está vinculada pelas resoluções da União Africana, da qual o nosso país é um dos fundadores.

Neste contexto, é de salientar que, ao contrário do que foi dito na declaração marroquina, a União Africana, na qualidade de importante participante na organização do Simpósio Internacional de Tóquio, emitiu um memorando convidando todos os membros da União Africana, incluindo a República Árabe Saharaui Democrática, a participar nas actividades da Cimeira TICAD 8 na Tunísia. Numa segunda fase, o Presidente da Comissão Africana fez também um convite individual directo à República Saharaui para participar na Cimeira”.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

O presidente Ibrahim Ghali chega a Tunes para participar na 8ª Cimeira TICAD


Brahim Ghali recebido no Aeroporto Internacional de Cartago
pelo presidente tunisino Kais Saied


Tunes, 26 de agosto de 2022 (SPS) – O Presidente da República Saharaui e Secretário-Geral da Frente Polisario, Brahim Ghali, chegou a Tunes para participar na Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano (TICAD).

Após sua chegada ao Aeroporto Internacional de Cartago, o presidente saharaui foi recebido pelo presidente tunisino Kais Saied. Os dois presidentes foram acolhidos por um batalhão da Guarda Republicana tunisina, após o que os dois dirigentes conversaram no salão de honra do aeroporto.



A oitava sessão da Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento Africano pretende ser ocasião importante para destacar o compromisso internacional em geral e o compromisso japonês em particular com o continente africano.

A cimeira, dominada pelo sofrimento global das repercussões da epidemia, a crise da guerra na Ucrânia e seu impacto na economia mundial, centrar-se-á no crescimento, no apoio à economia, no combate às mudanças climáticas e ao terrorismo em África.

A TICAD 8 constitui uma etapa importante no caminho para o fortalecimento da cooperação, explorando horizontes mais amplos de parceria entre os países africanos e o Japão e intensificando as iniciativas para alcançar o desenvolvimento sustentável e equitativo e consolidar os elementos de segurança, estabilidade e paz para todos os povos do continente africano.

O Presidente da República Saharaui é acompanhado por uma importante delegação que inclui o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohamed Salem Ould Salek, o representante saharaui permanente junto da União Africana, Abdati Abreka, Assessor da Presidência da República, e El Nana Labat Al-Rasheed, Conselheiro da Presidência da República responsável pelo mundo árabe.


domingo, 15 de maio de 2016

Primeiro-ministro tunisino esquiva-se, pela segunda vez, a armadilha marroquina




O Chefe de Governo da Tunísia, Habib Essid, foi convidado para uma visita oficial a Marrocos de 9 a 11 de Fevereiro de 2016. Mas ele foi obrigado a adiar a sua visita quando se apercebeu que o rei de Marrocos havia-lhe preparado uma armadilha. Ele ia recebê-lo na cidade de El Aaiún, capital do Sahara Ocidental ocupado por Marrocos numa tentativa clara de perturbar as relações da Tunísia com a Argélia.

Mohamed VI, zangado, esquivar-se-ia ao encontro com o primeiro-ministro tunisino visitando a China. Aliás, segundo a imprensa marroquina, Habib Essid apenas se avistou com o seu homólogo marroquino, Abdelilah Benkirane.

Habib Essid, em entrevista à televisão oficial, teve que se esquivar de uma outra armadilha relacionada com o Sahara Ocidental. "Qual é a sua opinião sobre a questão da integridade territorial de Marrocos e os grandes investimentos anunciados por sua Majestade o rei nas nossas províncias do sul e qual é a sua opinião sobre a última resolução do Conselho de Segurança sobre o nosso Sahara?". Esta a pergunta que lhe foi colocada pela jornalista marroquina, o que equivale a uma das duas posições: ou ela queria provocar o responsável tunisino ou então ela é estúpida que nem uma porta.

Espantado com a pergunta, e após uma breve pausa, o prim3eiro-ministro tunisino respondeu: "A Tunísia apoia os esforços das Nações Unidas no Sahara Ocidental".

Importa recordar, que o SG da ONU, Ban Ki-moon, também recusou a proposta do rei Mohamed VI de o receber em El Aaiún. Razão pela qual, Marrocos não autorizou a aterragem do SG da ONU na capital saharaui. Em resposta ao desafio marroquino, Ban Ki-moon decidiu visitar a sede da MINURSO que se encontra na localidade de Bir Lehlou, no coração dos territórios libertados saharauis e onde a Frente Polisario proclamou, a 27 de Fevereiro de 1976, a República Árabe Saharaui Democrática.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Presidente da RASD felicita homólogo da Tunísia




Tunes, 23/12/2014 (SPS).- O Presidente da República Árabe Saharaui Democrática, Mohamed Abdelaziz, manifestou as suas felicitações a Mohamed Albagi Algaed Essbsi pela sua vitória nas eleições presidenciais que tiveram lugar no passado domingo.

Mohamed Abdelaziz transmitiu esses votos em nome do Governo e do Povo Saharaui ao novo Presidente e Governo tunisinos e a todo o povo da Tunísia.

Mohamed Abdelaziz elogiou o processo eleitoral na Tunísia, afirmando na sua mensagem que a "Tunísia deu um exemplo aos povos do mundo".


O Presidente Mohamed Abdelaziz reiterou a disposição da República Saharaui fortalecer as relações bilaterais com a Tunísia. (SPS)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Magrebe-2013 : uma visão sobre os acontecimentos importantes




O que de mais importante ocorreu em alguns países do Magrebe (Marrocos, Tunísia, Mauritânia e Líbia) analisado por uma publicação argelina (Algérienews)

Inúmeros acontecimentos marcaram o Magrebe em 2013 bem como a União dos Povos, embora enquanto organização esta continue a ser uma utopia.
Marrocos conheceu uma recessão e dificuldades económicas que obrigaram o reino a fazer empréstimos junto de instituições financeiras mundiais.
A Tunísia contínua em busca de um consenso nacional para uma saída da crise. A crise política pesa enormemente sobre a economia e as receitas do turismo.
Na Líbia, a autoridade provisória com enorme dificuldade tenta implementar instituições de segurança capazes de criar uma atmosfera de serenidade e tranquilidade.
Na Mauritânia, as eleições locais marcaram o final do ano passado com o reforço do partido no poder.
Os Saharauis não conseguiram realizar o seu sonho de autodeterminação diante das vicissitudes políticas de Washington e da oposição da França.
 
Rei Mohamed Vi de Marrocos

Marrocos : um passo atrás

A tensão entre Marrocos e a Argélia marcou seriamente os espíritos em 2013. Nunca as relações entre os dois países chegaram a uma fase tão confusa. Marrocos aproveitou a oportunidade de uma carta do Presidente da República, Abdelaziz Bouteflika, lida em Abuja pelo ministro da Justiça, Tayeb Louh,  para gritar por conspiração. O Makhzen mobilizou todos os seus centros e porta-vozes para denegrir a Argélia.
A crise diplomática inflamou-se ainda mais dos dois lados depois que um indivíduo que diz pertencer à "juventude monarquista" ter arrancado a bandeira do consulado argelino em Casablanca.
As relações argelino-marroquinas também estiveram no centro do discurso do rei de Marrocos, por ocasião do 38 º aniversário da Marcha Verde, a 6 de novembro. Poucos dias depois, Bouteflika, enviou uma carta de felicitações ao rei por ocasião do 58 º aniversário da independência de Marrocos. Dado o clima prevalecente, esta foi vez vista como um gesto de decoro diplomático.
O caso do pedófilo Espanhol agraciado por Mohamed VI quase colocou reino a ferro e fogo. O “Danielgate”, como o designou a imprensa marroquina, tem alimentado a ira dos marroquinos. Se a maioria da media nacional tinha avançado com grande contenção sobre um assunto que envolvia diretamente o rei, a cobertura do caso pela imprensa internacional e a posição da sociedade civil criaram um verdadeiro brua-á-á.
A repressão policial à manifestação de 2 de agosto em Rabat não conseguiu demover os marroquinos. Pelo contrário, as ONGs de Direitos Humanos foram ao ponto de apresentar uma queixa contra o ministro do Interior da época. No entanto, isso não extinguiu o fogo da controvérsia. Ainda sob a pressão social e internacional, Marrocos solicitou a extradição do pedófilo. Mas a Espanha acabou por se opor, alegando que os acordos de extradição de prisioneiros entre os dois países não incluem nacionais.
Hoje, Daniel Galvan cumpre a sua sentença em Espanha, com a possibilidade de sair da prisão em 2018, de acordo com o artigo 92 do Código Penal que prevê, sob certas condições, a liberdade condicional para presos com mais de 70 anos.
O caso do jornalista Ali Anouzla também despertou o interesse público. Preso em 17 de setembro, em Rabat, na sequência da publicação de um vídeo da Al-Qaeda para o Magrebe Islâmico, que incitava a cometer "atos terroristas" em Marrocos, o ex-editor do site Lakome.com foi e continua a ser acusado de atos terroristas.
  


Tunísia: A crise ... ainda e sempre

Ao longo de 2013, a Tunísia tem vivido sob o peso de uma grave crise política que deixou sua marca sobre a situação socio-económica do país, atingido também por uma ameaça terrorista que constitui um surdo golpe para a sua estabilidade e dificulta o seu processo de transição. As forças de oposição laicas não deixaram de tecer críticas severas ao partido islâmico no poder acusando-o de "má gestão dos assuntos do país" e "tolerância" face as facções extremistas acusadas ​​de estarem na origem dos atos de violência que sacodem o país. Acusações que são rejeitadas em bloco pelos dirigentes do partido no poder.
O assassinato do deputado Mohamed Brahmi, em julho passado, veio agitar a tensão entre o governo de transição chefiado por Ali Laârayedh, do partido islamita Ennahdha, e as forças da oposição laicas. Este assassinato foi o segundo, após aquele que matou, em fevereiro do mesmo ano, o político Chokri Bélaïd. Os partidos da oposição não hesitaram em apontar o dedo aos dirigentes da troika no poder, acusando-os de "má-fé" na elaboração da nova Constituição, com o único propósito de "prolongar" o período de transição, reprovando-lhes o fazerem nomeações partidárias no funcionamento do Estado "para prepararem operações de fraude na próxima eleição." Os dirigentes do partido no poder afirmam que o povo tunisino "votou neles em total democracia e, por consequência, não podem deixar de assumir as suas responsabilidades para cumprir a vontade da oposição, sob pena  de afundarem o país no desconhecido ". Durante muitos meses, os apoiantes de ambas as partes invadiram as ruas em diferentes regiões do país desatando um rio demonstrações e concentrações sem fim. O Livro Negro de Marzouki constituiu também um evento maior na vida política do país. Embora algumas publicações tivessem escapado ao controlo, as instâncias judiciárias tunisinas pronunciaram-se contra a sua difusão.
  


Mauritânia: nada mudou

O maior acontecimento político de 2013 na Mauritânia foi a organização de eleições legislativas e municipais em 23 de Novembro e 21 de Dezembro, respetivamente, depois de dois adiamentos devido à situação do estado civil e uma vã tentativa de estabelecer uma diálogo entre o governo e a ala mais radical da oposição. Um censo de 1,1 milhão de inscritos serviu de base para estas eleições, numa população global em idade de votar estimada em 1,9 milhões. Estas eleições tiveram a participação de sessenta partidos políticos, dos quais apenas quatro se reclamam da oposição. As eleições legislativas e autárquicas de 2013 foram boicotadas por dez partidos reagrupados na Coordenação da Oposição Democrática (COD) e alguns outros de tendência radical.
Após as eleições, que conheceram uma afluência estimada em 72 %, o presidente Mohamed Ould Abdel Aziz dispõe de uma confortável maioria de 108 deputados, numa assembleia nacional que conta com um total de 147 lugares. O partido principal da maioria, a União para a República, tem 74 membros e seus aliados do movimento presidencial elegeram 34 deputados. O movimento favorável ao poder é também amplamente maioritário nas assembleias municipais, apesar de uma forte presença da oposição nos municípios de Nouakchott, onde ganhou três dos nove presidentes camarários. Depois destas eleições, o presidente Mohamed Ould Abdel Aziz elogiou "o bom desenvolvimento" dos escrutínios e salientou o facto de que eles permitirem uma renovação da classe política, tanto a nível da assembleia nacional como nos conselhos municipais.
  


Líbia: um grande país “balcanizado”

O ano terminou na Líbia sem que nenhum progresso se tenha registado em termos de segurança. Autoridades Provisórias lutam por implementar Instituições de segurança enquanto as milícias retomam o caminho da violência. Grupos mercenários, jihadistas e separatistas cercam as perfurações de petróleo para encurralar o Governo interino a aceitar as suas diferentes exigências. É o ciclo do terror que se instalou em Trípoli e Benghazi, onde se registam ataques contra embaixadas e representações diplomáticas. O último ataque ocorreu na manhã do dia 30 de dezembro, contra a Embaixada da França em Trípoli. Fez dois feridos entre a polícia francesa, um dos quais gravemente, e causou grandes danos. Trata-se do primeiro ataque contra interesses franceses na Líbia desde a queda de Mouammar Kadhafi em 2011. Para o analista Patrick Haimzadeh, especialista sobre a Líbia, este ataque é sintomático de um país assolado pela violência permanente.


Algérienews, 01/01/2014

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Em Marrocos, o silêncio dos vizinhos perturba

Mohamed VI

Em Marrocos, o silêncio dos vizinhas incomoda e inquieta. Para "remover" a situação, Rabat cria uma polémica para obrigar os vizinhos a pronunciarem-se sobre o tema. Agora, diz que a Mauritânia recebeu dinheiro da Argélia para apoiar a MINURSO a vigiar os direitos humanos...

Na sua busca de um argumento que eleve o moral dos marroquinos na batalha perdida do Sahara Ocidental, o Makhzen precisa do conforto dos seus vizinhos, cuja posição vale o seu peso em ouro neste conflito. Especialmente a Mauritânia, um país que participa em todas as reuniões realizadas sob os auspícios da Organização das Nações Unidas. Nouakchott continua a reafirmar a sua neutralidade no conflito no Sahara Ocidental. Mas parece que o facto de este país ter o cuidado de evitar pronunciar-se sobre esta questão levanta preocupações em Rabat. Então, o governo marroquino pronuncia-se através dos media lançando polémicas com o objetivo de levar os responsáveis dos países vizinhos a pronunciarem-se sobre a questão.

Assim, “Al Akhbar Info”, um jornal mauritano conhecido pelas suas afinidades com Marrocos, acaba de anunciar que "a Argélia pressiona a Mauritânia a jogar um papel no projeto de vigilância dos Direitos do Homem ".

"A aceitação pela Mauritânia da proposta da Argélia e da Frente Polisario de intervir no dossiê dos direitos humanos no Sahara Ocidental azedou as relações diplomáticas entre Nouakchott e Rabat", afirma esta fonte.

Na Tunísia, o jornal tunisino "Assour", escreveu que a Tunísia "está-se preparando para reconhecer a Polisario". A mesma fonte relata uma "crise marroquina-tunisino no horizonte." Num comunicado emitido a 5 de dezembro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Tunísia emitiu uma declaração em que reitera a posição de princípio da Tunísia sobre o Sahara Ocidental e seu compromisso com a "neutralidade positiva" para com todas as partes envolvidas. O problema é que, em Marrocos, mesmo a neutralidade incomoda.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Manifestantes saharauis reprimidos por se manifestarem contra Acordo de Pescas EU-Marrocos




Um grupo de manifestantes saharauis foi ontem dura e revoltantemente reprimido por esbirros da polícia à paisana e forças de choque marroquinas na avenida principal de El Aaíun ocupada. Pronunciavam-se pacificamente contra o Acordo de Pescas EU-Marrocos.

Os saharauis do Sahara Ocidental ocupado não têm direitos aos mínimos direitos de cidadania, de expressão, de manifestação, de reunião, de deslocação, de livre imprensa… NADA! E isto há quase 40 anos, desde que em 1975 Marrocos invadiu e ocupou a antiga colónia espanhola.


Não obstante todas estas evidências e factos facilmente comprováveis, a União Europeia, pressionada por Espanha e pelo Governo de Mariano Rajoy (Espanha terá direitos a 100 das cento e tantas licenças de pesca previsto pelo acordo…), pretende tornar-se cúmplice da ocupação e exploração colonial beneficiando dos recursos haliêuticos saharauis. Tapando os olhos e ouvidos às violações dos Direitos do Humanos de que são alvo os saharauis e sem que os oiça e atenda à sua opinião sobre esse escabroso negócio, do qual a população saharaui em nada tira benefício. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A fronteira das duas Coreias às portas da Europa

  

Começa a menos de 200 quilómetros a sudeste de Almeria. Com os seus 1.559 quilómetros, é a mais longa fronteira do mundo encerrada e assim vai estar por muito tempo. O Magrebe continuará a ter algo em comum com as duas Coreias ou com a Arménia e o Azerbaijão, cujas fronteiras estão hermeticamente seladas.
 
A Argélia acaba de colocar a Marrocos condições de difícil cumprimento para reabrir a sua fronteira comum que fechou há 19 anos, depois de Rabat ter imposto o visto aos argelinos que desejassem cruzá-la. Em 2005, Rabat suprimiu essa determinação, mas Argel manteve a fronteira fechada. Desde então, o escasso comércio entre os dois pesos pesados do Magrebe transita pelos portos de Valência, Algeciras ou Marselha.

Os marroquinos anseiam a reabertura dessa fronteira terrestre. Mas, para além do drama humano que o seu encerramento provoca, com famílias mistas separadas por uns poucos quilómetros que para se reunirem têm que pegar o avião, o seu fecho implica também um forte golpe económico. Em 1993, Marrocos acolheu dois milhões de turistas argelinos; em 2012, foram apenas 90.000; e todos entraram por via aérea.

Reunidos em Congresso em Saidia, uma localidade de veraneio perto da Argélia, os advogados de Marrocos reiteram, no passado dia 8 de junho, o pedido para a Argélia reabrir a fronteira. Encabeçados pelo Secretário-Geral da Ordem de Advogados Árabes, o libanês Omar Ezzine, promoveram uma manifestação até a beira do rio Kiss, que separa Saidia do povoado argelino de Marsat Ben Mehidi. Queriam deixar clara a sua reivindicação ao exército argelino que guarda a fronteira.

Onze dias depois, o ministério dos Negócios Estrangeiros da Argélia respondeu recusando a sua pretensão. Amar Belani, porta-voz da diplomacia argelina, colocou três condições para reabrir os postos fronteiriços.

A primeira é que Marrocos “deixe de denegrir a Argélia nos meios de comunicação, nas reuniões mundiais e ante personalidades internacionais”. Uma parte da imprensa marroquina reflete fielmente as posições das suas autoridades, mas outra goza de certa independência e fazendo uso dela critica Argel porque acredita que a Argélia se equivoca.

Deve Rabat censurar essa imprensa para agradar ao seu vizinho? Por que razão Argel não segue o exemplo censurando a sua própria imprensa quando arremete contra o vizinho marroquino e especialmente contra o rei Mohamed VI? A petição de Argel faz lembrar aquela que, uma vez, formulou Rabat ao Governo espanhol para que convencesse a imprensa a que deixasse de fazer críticas a Marrocos.

A segunda condição consiste, segundo Belani, em que Rabat desenvolva “uma cooperação sincera, eficaz, que gere resultados e acabe com a agressão quase diária que supõe a introdução de droga” oriunda de Marrocos. Argel pode ter queixas sobre a falta de colaboração do seu vizinho nesse e noutros aspetos, mas Rabat tem outros tantos motivos para estar desgostoso com a atuação argelina em vários âmbitos. A cooperação não funciona e até a ex-secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, o lamentou durante o seu périplo magrebino de 2008.

Marrocos deve, por último, “respeitar a posição argelina sobre o Sahara Ocidental que consideramos como um assunto pendente de descolonização que tem de ser resolvido acatando a legalidade internacional no âmbito da ONU”, segundo Belani.

Esta exigência argelina remonta a 1975, ano em que a Espanha entregou a sua colónia sahariana a Marrocos. A pesar disso Argel manteve durante 19 anos (1975-1994) a sua fronteira comum com Marrocos aberta. O que mudou para que agora ela permanece encerrada?

Os argumentos esgrimidos pela Argélia para recusar a abertura da fronteira escondem outros, de maior peso: a reabertura beneficiaria sobretudo Marrocos que receberia um aluvião de turistas argelinos – como recebe hoje em dia a Tunísia - desejosos de desfrutar de um ócio que não oferece o seu próprio país e comprar bens de consumo nem sempre disponíveis na Argélia.
  
Embora algo menos, os peritos asseguram que a Argélia também poderia ter benefício da reabertura que dinamizaria o conjunto do Magrebe acrescentando dois pontos ao seu crescimento anual. O pequeno tamanho dos seus diversos mercados dissuade, por vezes, o investidor estrangeiro. Levantar barreiras, avançar para a integração é o único caminho para o desenvolvimento.

"A estimativa do custo do encerramento da fronteira fica aquém: 2% de perda de crescimento é um cálculo frequentemente apontado para simplificar a discussão", diz Francis Ghilès, investigador do CIDOB (Centre for International Affaires of Barcelona). "Na verdade, acho que o encerramento da fronteira custa muito mais caro aos países do Magrebe”.


Artigo do jornalista do “EL PAIS” Ignacio Cembrero | 22 de junho de 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Sahara Ocidental esteve no Fórum Social Mundial (II)

Comunicado público


 Nosostras y nosotros, que integramos el grupo de facilitación de la Asamblea de Movimientos Sociales, venimos a público para informar sobre los hechos ocurridos al final de la asamblea realizada en el 29 de marzo de 2013, en el marco del Foro Social Mundial de Tunísia.

El programa de la Asamblea – que es una actividad auto-organizada y apoyada por más de 50 organizaciones que actuan en el FSM - fue bruscamente interrumpido por algunas y algunos delegados de origen marroquí. Los mismos invadiron la tribuna e intentaron por medios violentos impedir la ultima parte de la lectura de la propuesta de declaración, donde afirmamos que "defendemos el derecho de los pueblos a su autodeterminación y a su soberania como en Palestina, en el Sahara Ocidental y en el Curdistán".

La apertura de la palabra al público estaba prevista para después de la lectura pero eso no fue posible en consecuencia de las amenazas verbales y físicas destinadas a las y los animadores de la asamblea. Frente a la dificultad de continuar los debates, anunciamos el fin de la asamblea despues de terminar la lectura de la declaración.

Condenamos energeticamente tal episodio y recordamos a todas y todos que no es la primera vez que estes tipos de hechos suceden en el espacio del FSM. Tenemos registros de que personas quienes se identifican como integrantes de la sociedad civil, sea de Marruecos o de la diáspora marroqui en otros países de la Europa, ya realizaron actos similares en el Foro Social Mediterraneo, realizado en Cataluña, en el año 2005, y en el Foro Social Mundial 2011, en Dakar, donde durante la Asamblea de Mujeres, impidieron las afirmaciones en defensa del derecho a la autodeterminación de las mujeres saharauis. En Dakar, además, ocurrieron actos sistemáticos de provocación y disturbio de las actividades organizadas por la delegación saharaui.

Tal comportamento es inacceptable y en contradicción a los valores de libertad de expresión, democracia y respecto mutuo, expresos en la Carta de Princípios del Foro Social Mundial, y al principio de autodeterminacion de los pueblos. Estes acontecimientos deben ser tomados en cuenta en los momentos donde discutimos el futuro del FSM.

Reafirmamos nuestra solidaridad y nuestro compromiso militante con el pueblo saharahui y por el respeto de los acuerdos internacionales que reconocen sus derechos y reafirmamos nuestra postura politica contra la intolerancia y por un espacio de colaboración entre hombres y mujeres en la misma lucha. Exigimos a los gobiernos de Marruecos y de Tunisia la seguridad de las y los activistas del movimiento social de esos países y convocamos a todas y todos participantes del proceso FSM, comprometidos a su Carta de Princípios, a estar atentos a estes eventos y alertas para todas las iniciativas de solidaridad y de protección a las y los activistas internationales que no tienen miedo de defender la lucha del pueblo saharaui por su autodeterminación.

Tunis, 31 de marzo de 2013

CADTM (Comité pour l’Annulation de la Dette du Tiers Monde www.cadtm.org ) ;  -CUT (Central Única dos Trabalhadores) ; - FDIM ; - GGJ (Grass Roots Global Justice – USA http://ggjalliance.org/ ) ; - IAC ; - MMF (Marche Mondiale des Femmes http://www.marchemondialedesfemmes.org/ ) ; - PPHERC (Poor People’s Economic Human Rights Campaign –USA) ; - Stop the Wall ; - Via Campesina

François Hollande: não, em Marrocos não houve evolução democrática



François Hollande prepara-se para, a partir de quarta-feira, realizar uma visita oficial a Marrocos, país que no contexto das revoluções árabes sempre beneficiou de uma apreciação indulgente da parte dos países ocidentais.

Com efeito, quando o processo de democratização avança dificilmente na Tunísia, quando no Egito os integristas tentam «amarrar» a revolução, quando na Líbia as armas circulam e onde se está não longe do caos, e quando na Argélia nada se passou, Marrocos é recorrentemente citado como referência, desde o início destas revoluções, tanto pela França (estamos recordados das declarações de Alain Juppé louvando a democracia marroquina), como pelos Estados-Unidos ou certas organizações internacionais, como se uma revolução ou uma transição política tivesse tido lugar nesse país.

Ora, quando se segue a vida política marroquina, rapidamente se constata que não há, não houve nem revolução política, nem transição democrática mas, no máximo, uma evolução marginal no sistema que prevalecia e continua a prevalecer.

O que mudou a reforma constitucional?

Com efeito, a reforma constitucional, iniciada pelo rei no início de março de 2011, após as primeiras manifestações do chamado 20 de fevereiro, e controlada desde o seu início pelo monarca (recorde-se, ele nomeou discricionariamente todos os membros da comissão encarregada de propor a revisão constitucional, essa comissão trabalhou sob o controlo dos seus mais próximos conselheiros, e por fim o referendo que se realizou quinze dias após a comunicação oficial do texto, deu origem a mais de 99% de sim ... o que realmente dá que pensar), não alterou o funcionamento real das instituições e manteve os plenos poderes nas mãos do rei.

Este, no quadro da nova Constituição, continua a controlar o governo e os seus membros, nomeadamente os principais cargos: ministério dos Negócios Estrangeiros, ministério do Interior, ministério da Defesa.
 
Cartoon de Khalid Gueddar, in Lakome.com


O governo atual, composto por cinco formações políticas, desde os integristas «moderados» aos antigos comunistas, passando pelo movimento «centrista» dos berberes, governa sob o controlo oficial do Parlamento mas no quadro que o rei lhe fixou.

É o rei quem decide in fine, como recentemente admitiu o Primeiro-Ministro quando entrevistado pelo canal TV5 - RFI - Le Monde.

O rei não tem contas a prestar

É claro que o rei não tem contas a prestar sobre os objetivos fixados nem sobre o balanço desses objetivos. Vários ex-ministros tornaram-se conselheiros do rei, encarregados de controlar de maneira não visível a ação do governo e do primeiro-ministro.

Além disso, a nomeação de altos funcionários (governadores e walis, embaixadores, diretores das administrações centrais, etc.) permanece sob o controle rígido do rei.

A mistura de géneros e o conflito permanente de interesses entre a política e a economia permanece. O rei continua, através da sua holding (SNI e suas subsidiárias) a fazer negócios, controlando desta forma uma parte muito grande da economia, ganhando concursos públicos emitidos por instituições ou empresas públicas.

O rei continua a enriquecer com os impostos dos marroquinos, assim como uma lista de personalidades bem colocadas (cerca de 250 milhões de euros em 2013).

A imprensa não é mais livre que antes

A imprensa não é mais livre que anteriormente. É impossível a um órgão de comunicação social ou um jornalista tecer a mínima crítica ao rei sem ser ameaçado ou condenado enquanto este reina, governa e faz negócios em Marrocos !

Cartoon de Plantu,
sobre a repressão à imprensa

Persiste o culto da personalidade do rei. Prepara-se desde logo o seu filho de 9 anos a quem os altos funcionários do Estado lhe prestam já o beija-mão.

Em resumo, não mudou muita coisa desde 2011 e com a nova Constituição.

Se o rei e a sua «entourage » são os primeiros responsáveis por esta situação, também uma grande maioria da classe política é corresponsável ao aceitá-lo, no «seu desejo cego», de servir a vontade do rei.

Um futuro político incerto

No entanto, continua-se a dizer e a escrever aqui e ali que Marrocos é o modelo da região; mas os que transmitem a essa ideia deveriam ser mais prudentes. Esta falta de evolução deixa o futuro político de Marrocos incerto. Por duas razões :

A vontade da monarquia e do núcleo da classe política em conservar a repartição de poder tal como está traduz uma resistência da sua parte a qualquer tentativa de mudança.

Esta resistência à mudança significa que ela se fará necessariamente pela força e pela violência causando assim uma possível revolução. Esta forma que a monarquia tem de "exercer o poder sobre todas as questões da soberania (Justiça, Relações Exteriores, grandes questões económicas, etc.), de fazer negócios e " monopolizar " uma grande parte da economia marroquina, a ausência de partidos políticos que ofereçam uma alternativa e a ausência de uma imprensa livre torna o horizonte político a médio prazo incerto ou aleatório. Esta situação cria frustração e é agravada pelo facto de o rei estar no poder há quase 14 anos, e seus principais conselheiros também ocuparem esses lugares há 14 anos. O efeito de novidade e de esperança dos primeiros anos, una esperança naïf é bem verdade…, desapareceu e a usura do poder é cada dia mais evidente;  

A segunda razão deste horizonte incerto, que está estreitamente ligada à primeira, resulta da ausência de uma classe política capaz de formular uma crítica radical do atual sistema, da confiscação do poder pelo rei e da intervenção do rei na economia do país, propondo um projeto de sociedade alternativo e não obscurantista. Este vácuo político resultante da ausência de líderes políticos sérios e de uma via alternativa desejada pela monarquia, aumenta necessariamente o risco de instabilidade, que pode acontecer de forma um pouco imprevisível, como em 2011. As manifestações esporádicas nos últimos meses atestam-no.
Este futuro instável pode, na prática, chegar mais cedo do que o previsto. De facto, se a Tunísia consegue nos próximos meses concretizar a sua revolução política e democrática, transformando o teste realizado em 2011, e que não ocorra a passagem ou a recuperação da revolução pelos integristas da Ennahda – o que pode acontecer quando vemos a força da sociedade civil laica - isso mostrará, por outro lado, a deceção da transição marroquina.

Entre os detentores do poder em Marrocos, muitos são os que esperam, secretamente, o colapso da transição revolucionário tunisina para o utilizar como contra-exemplo e justificar a falsa evolução marroquina. Eles estão errados. Aqueles que estão à cabeça desse sistema, que se julgam inteligentes, podem vir a revelar-se os menos inspirados.

François Hollande, como representante da França, o primeiro país amigo de Marrocos, deveria no âmbito das suas reuniões, sugerir aos seus interlocutores marroquinos a necessidade de uma nova reforma constitucional aprofundada para uma monarquia que não governe e que não faça negócios.

Deveria, além do mais, incitar os líderes políticos marroquinos a se emancipar da tutela do rei. Isso estabilizaria o futuro político de Marrocos.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Sahara Ocidental esteve no Fórum Social Mundial

Decorreu na cidade de Tunes (Tunísia), entre os dias 26 e 30 Março, o 12º Fórum Social Mundial.

Foi a segunda vez que este evento se realizou numa cidade africana (em 2011 foi em Dacar, no Senegal).

E contou com uma participação saharauí bem visível na marcha de abertura do Fórum (fotos de Francisco Norega):




Mas a presença saharauí também se fez notar na Declaração final saída da Assembleia dos Movimentos Sociais onde se pode ler:

«Defendemos o direito dos povos à autodeterminação e à soberania, como nos casos da Palestina, do Sahara Ocidental e do Curdistão.»

domingo, 31 de março de 2013

A teimosia leva o Makhzen ao desespero




Devido à sua persistência em continuar a ocupação do Sahara Ocidental e prosseguir nas violações dos direitos humanos no território, Marrocos está na mira da comunidade internacional.

O Parlamento Europeu, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a Amnistia Internacional, Human Rights Watch, o relator especial sobra Tortura da ONU Juan Mendez, Ban Ki-moon, todos denunciaram as práticas desumanas de Marrocos no Sahara Ocidental contra uma população civil inocente que apenas reivindica o direito legítimo de protestar e se expressar.

Mesmo a presença do Enviado Pessoal do SG da ONU para o Sahara Ocidental, Christopher Ross, não dissuadiu as autoridades marroquinas.

Em vez de olhar de frente para a realidade, o governo marroquino persiste e prossegue na linha de conduta que consiste em enganar a opinião pública sobre a verdade do conflito que opõe Marrocos e os saharauis.

Em vez de fazer autocrítica, Rabat levanta o espantalho da Argélia. Sempre que a questão do Sahara Ocidental é analisada no Conselho de Segurança, Marrocos instrui as suas marionetas nos órgãos de comunicação social e meios associativos de se “atirarem” à Argélia. O primeiro-ministro marroquino, Benkirane, o ministro de Negócios Estrangeiros e até mesmo o rei Mohamed VI participam na campanha a fim de assegurar o silenciamento do povo marroquino e o seu apoio à louca aventura do Sahara.

Depois de perder todas as batalhas na questão saharaui, para Rabat seria um pesadelo também perder o apoio do povo marroquino, especialmente agora que o Makhzen está enfraquecido pelos ventos da Primavera Árabe.

Assim, a Argélia é acusada de estar por trás do Centro Kennedy para a Justiça e os Direitos Humanos, de estar por trás do ator espanhol Javier Bardem, de estar por trás da derrota de Marrocos no Fórum Social Mundial de Tunes etc. Mesmo o Enviado da ONU não escapou à ira de um governo desesperado que dispara em todas as direções para justificar a sua obstinação contra a vontade da comunidade internacional.

Fonte: La Tribune du Sahara

domingo, 2 de outubro de 2011

Tunísia defende solução definitiva no âmbito da legalidade internacional



A República da Tunísia afirmou a esperança de que seja encontrada uma solução definitiva para o conflito do Sahara Ocidental no âmbito da legalidade internacional.

Em discurso pronunciado ante a 66ª sessão da Assembleia Geral da ONU, o ministro dos Negócios Estrangeiros tunisino, Mohamed Mouldi Alkafi  afirmou que o seu país "espera que os esforços internacionais e as partes em conflito prossigam as negociações na esperança de encontrar uma solução política e definitiva para o conflito que respeite a legalidade internacional". (SPS)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ministro dos Negócios Estrangeiros da Tunísia deseja "que uma solução seja encontrada o mais breve possível"


Mohamed Mouldi Kéfi, ministro dos Negócios Estrangeiros tunisino, afirmou Sábado em Argel que o seu desejo é "que uma solução seja encontrada o mais breve possível para esta questão", afirmando que segue de “muito perto” as diferentes reuniões entre a Frente Polisario e Marrocos.

"Desejamos que uma solução seja conseguida no mais breve prazo para esta questão, e esperamos que da próxima ronda de negociações surjam novas ideias mais construtivas ", afirmou em conferência de imprensa conjunta com o seu homólogo argelino.

O ministro tunisino dos Negócios Estrangeiros chegou Sábado a Argel no quadro de uma visita de trabalho a convite do seu homólogo argelino, Mourad Medelci, para presidir à delegação tunisina que participa na 6.ª sessão da comissão de concertação política entre a Argélia e a Tunísia.
(SPS)

sábado, 26 de março de 2011

II Conferência Internacional de Juristas sobre el Sahara Ocidental


A II Conferência Internacional de Juristas sobre o Sahara Ocidental, sob o título: "O SAHARA OCIDENTAL, LEGALIDADE INTERNACIONAL E DIREITOS HUMANOS", realiza-se em Altea -Alicante, de 29 de Abril a 01 de Maio próximos.

Entre os oradores contam-se Jaume Ferrer Lloret (Catedrático de Direito Internacional Público e Relações Internacionais da Universidade de Alicante), Maya Sahli-Fadel (Professora de Direito Internacional da Universidade de Argel), Manuel Olle Sese (Professor de Direito Penal, Director da Cátedra de Direitos Humanos da Universidade Antonio de Nebrija e Académico da Real Academia de Jurisprudência e Legislação), Ines Miranda Navarro (Advogada, Coordenadora do Conselho Geral da Advocacia Espanhola sobre Observação Internacional no Sahara Ocidental), Abdessatar Benmoussa (Ex-Bastonário da Ordem de Advogados da Tunísia), Carlos Villan Duran (Presidente da Associação Espanhola para o Direito Internacional dos Direitos Humanos (AEDIDH), Francesco Bastagli (Ex-Representante Especial do Secretário-Geral da ONU para a manutenção da Paz no Sahara Ocidental), Anna Badía Marti (Catedrática de Direito Internacional Público da Universidade de Barcelona), Juan Soroeta Liceras (Professor de Direito Internacional Público da Universidade do País Basco), Andres Perelló Rodrigues (Deputado do Parlamento Europeu) e Eduardo Melero Alonso (Professor de Direito Administrativo da Universidade Autónoma de Madrid), entre muitos outros.


Para mais informações ver: o sítio da IAJUWS: http://iajuws.org/

terça-feira, 22 de março de 2011

EUA apoiam o processo de pasz no Sahara Ocidental sob a égide das Nações Unidas


Durante a sua curta estadia na Tunísia a semana passada, em declarações à cadeia de Televisão privada Nessma, a Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton fez questão de sublinhar a posição do país em relação à questão do Sahara Ocidental, afirmando que "qualquer resolução da questão do Sahara Ocidental passa por uma mediação que implique todas as partes interessadas".

O Governo dos EUA "apoia o processo de paz levado a cabo sob a égide das Nações Unidas", afirmou a senhora Clinton.

Por sua vez, o primeiro-ministro tunisino, Béji Caïd Essebsi, após um encontro que manteve com o rei de Marrocos Mohamed VI, revelava que «a questão do Sahara constitui um obstáculo à integração maghrebina e que é importante encontrar uma solução política e definitiva para esta questão, em conformidade com a legalidade internacional"
(SPS)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

“O Governo espanhol está a levar a cabo uma campanha frenética contra o povo saharaui”


Bucharaya Beyun, membro da direcção nacional da Frente Polisario e delegado saharaui para Espanha, recebeu a jornalista Tatiana Escárrga, do jornal online www.portal.ajintem.com uns dias depois da última ronda de negociações entre a Frente Polisario e Marrocos, realizadas nos EUA. Beyun critica a postura espanhola face ao conflito e assegura que os saharauis estão dispostos a voltar às armas se não se realizar o referendo, através do qual os saharauis possam alcançar a autodeterminação. “A chantagem permanente que Marrocos exerce sobre Espanha é inadmissível”, afirma.

Realizou-se mais uma ronda encontros entre a Frente Polisario e Marrocos nos Estados Unidos, sob os auspícios da ONU mas, como sempre, não se avançou. Quais as suas expectativas relativamente a futuras conversações?
As reuniões não vão dar em nada porque quando Marrocos aceitou negociar não o fez com a vontade sincera de alcançar uma solução. Aqueles que apoiam Marrocos — Espanha incluída —, não queriam uma saída negociada, antes colocar o conflito sob o chapéu-de-chuva da ONU e, assim, obrigar a Polisario a aceitar as condições marroquinas, apesar do conteúdo da resolução falar de ir para negociações sem condições prévias. Estas reuniões têm por base a rejeição de Marrocos à realização de um referendo. A ONU criou a MINURSO, que é a missão para o realizar e foram feitos todos os trabalhos técnicos, inclusive um censo eleitoral para determinar quantos saharauis podiam votar. Determinou-se que eram cerca de 85 mil pessoas, das mais de 200 mil que se apresentaram como candidatas.

Mas a Ministra dos Negócios Estrangeiros de Espanha, Trinidad Jiménez, assegurou recentemente que para a Frente Polisario seria complicado estabelecer um censo eleitoral.
Isso é completamente falso. Não é verdade. É um argumento esgrimido para defender a tese marroquina de que o referendo não é possível por razões técnicas. Os impedimentos existentes são a falta de vontade política que tem Marrocos, confortado pelo apoio de Espanha e de França. O que disse a ministra não tem fundamento. Pergunto: porque razão a Espanha tem tanto medo que os saharauis possam escolher e decidir? Podem decidir até… ser marroquinos. Mas que lhes seja permitido decidir. As declarações de Trinidad Jiménez inscrevem-se dentro da frenética campanha que está a levar a cabo o Governo espanhol contra o povo saharaui.
A grande maioria dos terroristas do 11 de Março eram marroquinos.


Acha que Espanha teme Marrocos? Porquê?
Estou convencido de que Marrocos tem suficientes métodos de pressão e de chantagem sobre este governo e obriga-o a torcer o braço. Quais são essas formas de pressão? Não sei. O que sei é que as razões de Espanha não são convincentes. Fala-se sempre de interesses económicos. Quais? Espanha apenas tem umas 600 pequenas e médias empresas em Marrocos. Isso não é comparável com o volume de investimento da Repsol, Cepsa e Gas Natural na Argélia. Eu não acredito nos interesses económicos, Tão pouco é comparável com os interesses que a Espanha pode ter amanhã num Sahara independente. Interesses estratégicos? Marrocos sempre será uma zona de influência francesa em primeiro lugar, americana e só depois espanhola. Querem que Marrocos pare com a emigração ilegal, as drogas...Isso é uma espada de Damocles que sempre penderá sobre Espanha. É uma chantagem constante. E é inadmissível. Marrocos diz ser o muro de contenção do terrorismo. De qual? Do seu próprio terrorismo, do que está em Casablanca, em Marraquexe...O caldo do terrorismo está nas grandes cidades onde há injustiça, marginalização, desigualdade, discriminação e pobreza. É aí que tem origem o terrorismo. Segundo a imprensa espanhola, nos atentados do 11 de Março a maioria dos autores eram marroquinos. Acha que tantos marroquinos podem fazer algo sem que o seu governo esteja ao corrente? O terrorismo que Marrocos quer vender à Europa é o seu próprio terrorismo, porque a sua fronteira sul é o Sahara Ocidental, e no deserto não há terrorismo. Cada vez que Marrocos pressiona ou chantageia, Espanha cede. Não entendo como é que um Estado membro da OTAN e da UE, cede tanto ante uma monarquia feudal. Depois há os partidos políticos do Estado espanhol que sempre apoiam a independência

Os partidos políticos, como disse, apoiam a causa saharaui, mas apenas quando estão na oposição. Ao chegarem ao poder parece que se esquecem. Foi o caso do PSOE…
O PSOE, como partido, sempre esteve connosco. Quando ocorreu o desalojamento pela força do acampamento de Gdeim Izik vários governos autonómicos dirigidos por socialistas o condenaram. É a actual cúpula deste governo quem apoia a ocupação marroquina.

Crê que as palavras do Ministro da Presidência, Ramón Jáuregui, segundo as quais a Frente Polisario deve considerar a possibilidade de uma autonomia, reflectem a posição real do Governo?
É a demonstração material do compromisso deste governo com a tese marroquina. A campanha frenética de Espanha, através dos seus porta-vozes, deixa claro que Marrocos está numa situação difícil porque a sua proposta da autonomia é obsoleta. Espanha está-nos de novo a atraiçoar. Antes foi Franco, agora é o um governo socialista. É horrível. Querem hipotecar o direito do povo saharaui à autodeterminação, o que não vamos admitir. Não fizemos o antes, quando éramos mais débeis, sem meios, sem experiência, sem apoio internacional...Agora temos três dezenas de embaixadas, 83 países que nos reconhecem, somos membros da União Africana, temos um exército, homens suficientes para impedir que Marrocos consume a ocupação militar.

A confrontação bélica continua a ser uma opção para vocês...
Nunca a rejeitámos. Assinámos um cessar-fogo, não a paz ou um armistício. Fizemo-lo para criar as condições para o referendo. Se não, não teria sentido. Se a comunidade internacional não encontra uma solução aceite pelo povo saharaui não temos outro remédio que retomar as armas.

Esperavam com esta última crise mais apoio internacional, mais pressão sobre Marrocos?
Todo o mundo quer uma solução para o conflito de acordo com o direito internacional. Quem realmente o impede é, em primeiro lugar, a França com o seu direito de veto na ONU; e Espanha, que utiliza a sua ligação ao conflito vendendo a ideia de que o referendo não é a melhor solução.

EUA: com Obama "um papel mais aceitável"

E o papel dos EUA?
Passámos de um papel totalmente negativo com a administração Bush, que apoiava a tese marroquina, para um papel que considero mais aceitável com a administração de Obama, que não apoia Marrocos. Aceitamos o trabalho do mediador internacional, Chistopher Ross, que é americano e que propõe uma forma de negociar em que as partes discutam todas as alternativas sobre a mesa, porque antes só se queria forçar Polisario a discutir unicamente a proposta marroquina.

Enquanto prosseguem as negociações o conflito perpetua-se e o povo saharaui continua a viver em condições dramáticas...
É verdade que são condições difíceis, mas foram mais difíceis há 10, 20 ou 25 anos. Se já suportámos isso anteriormente, como não suportar agora que estamos muito melhor?

Em que é que estão melhor?
Melhorámos em tudo. As casas têm gás, placas solares, televisor, antenas parabólicas, as crianças vão à escola. É uma situação difícil mas é melhor do que no passado. Melhor até do que a que vivem outros povos africanos. Nos acampamentos ninguém pede esmola, porque todo a gente tem que comer, nem dorme em papelões nas ruas, como acontece em Madrid. Conseguimos que nenhum marido bata na sua mulher nem que a mate. Em muitos aspectos sociais, espirituais e morais estamos melhor que outras sociedades que são vítimas da droga, do alcoolismo e da violência de género.

Qual a situação nas zonas ocupadas?
Muitas coisas estão pior, como é o caso da educação, do trabalho.. Se a isso se acrescentar a repressão, a marginalização e a humilhação, podem imaginar como é insuportável.

Houve observadores internacionais que têm denunciado a repressão, as torturas...Nada parece ter mudado.
Marrocos persiste com a sua política de repressão e de violação dos Direitos Humanos, apesar dos relatórios de organizações como a Human Rights Watch e da Amnistia Internacional. E, inclusive, de ONG humanitárias marroquinas. O último relatório é da Fundação Robert F. Kennedy e nele estão patentes as torturas, a perseguição sistemática. A nossa batalha actual é que haja um mecanismo em todo o Sahara Ocidental que controle o respeito pelo Direitos Humanos, o que pedimos é que a Missão da ONU que está no território se encarregue disso. Mas Marrocos recusa esta opção. Procura impedir que ninguém vá para as ruas proclamar o seu direito à autodeterminação..

A situação que se vive nas prisões é extrema...
Há presos que esperam há mais de dez anos um julgamento. E as ameaças e os espancamentos são uma constante.

A fuga de jovens saharauis de barco para as Canárias esteve a ponto de provocar uma nova crise. O que acha da recusa do Ministério do Interior em conceder asilo a todos eles?
É uma situação que importa analisar muito bem. Desde o desalojamento do acampamento de Gdaim Izik, Marrocos está a levar a cabo uma espécie de limpeza étnica. Quer fazer desaparecer tudo aquilo que reflecte a identidade saharaui, seja o camelo, a jaima (tenda), o todo-o-terreno, os trajes de vestir. E por isso fazem circular a notícia que andam à procura de gente, e então obrigam-nos a sair, fazem vista grossa e a polícia não impede nada, até conseguem que lhes cobrem menos por viajar nas embarcações. É verdade quer alguns são perseguidos, a esses há que lhes dar a mão.. Outros não. Marrocos que simplesmente que se vão embora do território.

Os saharauis de origem Espanhola que residem aqui têm que enfrentar também o muro administrativo imposto pelo governo. Muitos, apesar de terem a nacionalidade espanhola, são tratados como cidadãos de segunda.
Nós, como Frente Polisario, o que pedimos a Espanha é que assuma a sua responsabilidade jurídica e política ante o conflito. Enquanto isso, cada saharaui é livre de ir aos tribunais e de lutar pelos seus direitos. É uma questão entre cada individuo e a administração espanhola.

A postura pacifista de Aminatu Haidar e de outros destacados activistas pode criar um certo distanciamento entre vocês…?
Travamos uma guerra porque nos a impuseram quando nos invadiram e tivemos que responder militarmente. Desejamos uma solução pacífica, mas se isso não chega, o que podemos fazer? Há muitos activistas que são pacifistas mas defendem a autodeterminação. Respeito-os a todos, são corajosos, bravos. Pagaram pelos seus ideais. Aminatu esteve quatro anos com os olhos vendados a maior parte do tempo, encerrada num lúgubre cárcere. Insisto, se a comunidade internacional não respeita o compromisso do referendo, que querem que façamos? Só nos deixam a possibilidade de ser marroquinos. E nem os próprios marroquinos querem sê-lo.

Porquê?
Porque o seu regime é pior que o tunisino.

As revoltas na Tunísia propagaram-se ao Egipto. Acha que poderão propagar-se a outros países?
Creio há condições em Marrocos para que isso aconteça, mais até do que na Tunísia. Aí havia uma classe média mais fortalecida, em Marrocos não, e, além do mais, há uma repressão terrível. Há muita pobreza, muita injustiça, muita miséria. O que ocorreu na Tunísia acontecerá noutros países. Em Marrocos luta-se pelo direito a comer. A riqueza está nas mãos de uma minoria e do rei.

As mulheres tem tido um papel muito activo na luta do povo saharaui...
Têm tido um papel muito importante. Durante os anos de guerra suportaram o peso da educação, saúde..São elas que estão em todo o lado. Mas não existem diferenças entre mulheres e homens e isso, comparado com o que acontece no mundo árabe, é um avanço enorme. Como disse, conseguimos que nenhum homem bata na sua mulher. E quando há divórcios são sempre elas que ficam com a casa. Eles têm que abandonar a residência.

E a situação dos menores? Dizia que tiveram grandes progressos mas em termos de infra-estrutura continua a ser dramático.
É dramático porque não compara com a quilo que vocês vivem.

Referia-me às condições de pobreza
A pobreza é moral. Aqui, no mundo ocidental, considera-se que o material é a felicidade. Lá, não temos a riqueza que têm aqui, e é verdade que há dificuldades, mas a ideia é criar uma infra-estrutura para assimilar os jovens que não têm trabalho. Impulsionámos a iniciativa privada e agora podem-se abrir oficinas para reparar veículos, móveis...E quanto ao problema sanitário faltam-nos muitos meios mas estamos ao nível dos países vizinhos. Trabalhamos muito na área da prevenção, e não temos muitas doenças com que os nossos vizinhos se confrontam . Contamos com a ajuda de comissões humanitárias de todo o mundo. Também há intervenções cirúrgicas que são feitas em Espanha.

Dá a sensação de que à margem do Governo a sociedade espanhola apoia completamente a causa saharaui . Como encaram essa situação?
A sociedade espanhola está muito ligada a nós porque percebe que a Espanha não levou a cabo uma boa descolonização. Por isso, muitos reclamam que o Estado espanhol se envolva na solução.

O actual embaixador de Marrocos em Espanha é saharaui. Foi dirigente da Frente Polisario e os seus antepassados lutaram contra a ocupação. Como analisa esta passagem para o «outro lado»?
Para mim este homem não acrescenta nem subtrai. Se um saharaui se passa para o lado do inimigo terá porventura os seus argumentos. Ele não é o primeiro nem o único. A história está cheia de homens assim. Olhe, por exemplo, Felipe González, que pronunciou um discurso maravilhoso no ano de 76 a favor dos saharauis e hoje defende Marrocos…

Peço-lhe um exercício de autocrítica. Em que é que se equivocou a Frente Polisario?
No início da nossa revolução cometeram-se erros. Prendemos a nossa própria gente, muitos a quem acusávamos de estar com o inimigo, e não era verdade. Mas fizemos “mea culpa” e não temos nenhum complexo em reconhecê-lo ante opinião internacional.

E a corrupção?
Corrupção há em todos os governos e em todos os países do mundo. Mas não temos a corrupção de que fala Marrocos. Uma coisa é o que faz um funcionário e outra coisa é a administração. Acusaram-nos de vender o apoio internacional. Mas as ONG estão presentes quando chega a ajuda e são elas que a recebem, armazenam e distribuem. Uma sociedade de anjos onde ninguém comete erros é utópico. Se uma ONG que está sobre o terreno denuncia, há que dar crédito, mas que o diga Marrocos...

Outro grande drama é a divisão de tantas famílias saharauis que estão nos acampamentos de refugiados e na zona ocupada e que não podem ver-se. Felizmente que o programa de visitas foi reactivado...
Sim, foi reactivado na sequência da última reunião em Nova Iorque. É um programa de intercâmbio de visitas supervisionado pela ONU, mas depois Marrocos começou a vetar algumas pessoas e então paralisámo-lo. Quem tem o critério para vetar é a ONU, não Marrocos. Esperemos que desta vez se respeitem os acordos.

Autor/a: Tatiana Escárraga / Equipo Ajintem
Fonte: www.portal.ajintem.com