sexta-feira, 29 de março de 2013

Passará Cristopher Ross o rubicão(*) ?


O último périplo de Cristopher Ross, enviado pessoal do secretário-geral da ONU para o  Sahara Ocidental, tem sido marcada por uma série de ações do governo marroquino que mostram a falta de respeito pelos direitos humanos e a atitude provocatória que mantém o sultão em relação ao enviado da ONU.

A 23 de março, durante a estadia de Ross em El Aaiún, ocorreu uma carga policial (à paisana) contra manifestantes pacíficos que protestavam contra a presença de Marrocos, impedindo, inclusive, que as ambulâncias pudessem socorrer os feridos. Desconhece-se o número de vítimas saharauis de terrorismo policial. A imagem desse dia nessa cidade era verdadeiramente surreal: num local, Ross e o responsável pela MINURSO ouvindo e conversando com vários ativistas de direitos humanos; noutro, os policiais disfarçados batendo selvaticamente todos os saharauis que apanhavam pela frente.


No mesmo dia, na cidade de Smara, cinco saharauis refugiaram-se na sede da MINURSO pondo em estado de nervos as forças de ocupação e funcionários da ONU. Começaram por tentar convencê-los a deixar o local através dos bons ofícios de alguns anciãos saharauis colaboracionistas. Ao não obterem resultado, Adoumou Abdallah Jayda e Mayhoub, assessor pessoal e chefe de segurança Ross, respetivamente, garantiram aos cinco saharauis que se concordassem em deixar o local beneficiariam de garantias para a sua segurança pessoal, teriam uma reunião com Ross em El Aaiún e eles mesmos acompanhariam o seu caso por forma a garantir que não sofreriam retaliações, fornecendo-lhes dinheiro para apanhar um táxi para a capital e pedindo-lhes para telefonarem logo que chegassem ao destino. Chegados à sede da MINURSO em El Aaiún, as suas chamadas telefónicas não foram atendidas, conforme acordado, e acabaram por ser sequestrados por polícias à paisana que os levaram de volta a Smara, onde foram torturados durante várias horas e abandonados no deserto.

Há que recordar que, durante o verão de 2012, o Rei de Marrocos tentou que Christopher Ross fosse afastado do cargo, manobra que redundou num completo fracasso para a diplomacia marroquina dado o forte apoio que Ross recebeu de Ban Ki-moon. No entanto, esses factos comprometem seriamente a credibilidade da ONU, pois a violação da promessa feita aos cinco jovens saharauis de Smara foi dada em nome das Nações Unidas, o sequestro ocorreu diante da sede da MINURSO em El Aaiún e a tortura cocorreu com a enganosa cumplicidade dos dois altos funcionários da organização.


A impunidade e o desprezo com que agiram as forças de segurança marroquinas coloca Christopher Ross ante o seu particular Rubicão, ou tem pessoas que trabalham para o sultão no seio da sua equipa, ou o confronto do país vizinho com o enviado pessoal do SG é irreversível. O que faria que qualquer solução proposta por Ross que não atenda aos interesses de Rabat esteja condenada ao fracasso, a menos que seja imposta pelo Conselho de Segurança.

Temos de apontar dois dados altamente relevantes. O primeiro é que a MINURSO é a única missão de paz da ONU que, entre as suas funções, não tem por missão garantir os direitos humanos na região para onde foi destacada. O segundo, é que o chefe das missões de manutenção da paz da ONU, Hervé Ladsus, é francês e assumiu o seu atual cargo graças a Zapatero, que teve de ceder para a França esta vaga correspondente a um espanhol, em troca de colocar Bibiana Aido em Nova Iorque com Michelle Bachelet (Nota:  ex-secretária-geral adjunta das Nações para Agência Mulher).

A 22 de abril, Cristopher Ross apresentará o seu relatório ao Conselho de Segurança, veremos nesse dia se a aposta da ONU é apoiar a livre autodeterminação dos povos não autónomos como consagra a sua própria carta ou continuar a apoiar a sangrenta colonização do Sahara Ocidental por Marrocos.

Fonte: EspaciosEuropeos - Diego Camacho (28/3/2013)

* A frase "atravessar o Rubicão" é usada para referir-se a qualquer pessoa que tome uma decisão arriscada de maneira irrevogável, sem retorno.

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